Único representante brasileiro a participar da exposição de 75 anos da ONU, o cearense Gerson Ipirajá tem como tema de trabalho a ancestralidade. Dedicada basicamente à gravura, sua obra ganhou reconhecimento no circuito internacional das artes plásticas  

Texto: Naara Vale 
naaravale@ootimista.com.br
Foto: Edimar Soares

O cearense Antônio Gerson Ipirajá Barreto, de 47 anos, mais conhecido apenas como Ipirajá, será o único artista plástico brasileiro a participar da exposição internacional “United Nations – Symbol of Life, Freedom and Happiness” (“Nações Unidas – Símbolo de Vida, Liberdade e Felicidade”, em inglês), que entrará em cartaz em janeiro de 2021, nas cidades de Nova York (EUA) e Genebra (Suíça) simultaneamente.

Inédito na história, o evento é um presente do governo da Romênia para a Organização das Nações Unidas (ONU), em celebração aos 75 anos de criação da entidade. A exposição reúne 216 artistas de 193 países membros da ONU e está sob a organização da Fundação Inter-Art, da Romênia.

Ipirajá participa do evento com a obra “Ferramentas Ancestrais”, tema que tem trabalhado ao longo dos seus 25 anos de carreira, dando à ancestralidade diversas formas e discursos. Para ele, o convite para compor uma exposição desse porte foi uma feliz surpresa. “É um momento muito massa de afirmação desses 25 anos de trabalho. Não é fácil manter uma carreira de 25 anos, sobretudo aqui em Fortaleza, nesse mercado que não é regular. Às vezes, a gente tem que fazer mil coisas para poder se manter enquanto artista, para fazer um trabalho digno, um trabalho sério, que haja pesquisa, haja conteúdo muito além do embelezar, do decorar”, diz o artista plástico.

O convite foi feito pelo curador e crítico de arte romeno Stefan Ballog, da Inter-Art, que conheceu o trabalho de Ipirajá durante a International Print Biennial Varna, na Bulgária, em 2019, da qual o cearense participou e teve obras adquiridas para o Gabinete de Estampas de Varna. “Pode crer que é um prêmio. No lado prático da vida, não altera muita coisa. No dia a dia, continua a mesma batalha de sempre, mas é uma afirmativa simbólica da minha escolha como ser humano”, comemora o cearense.

Trajetória

Quando ainda adolescente saiu da casa dos pais, em Fortaleza, para morar em Aracati, no ano de 1990, Gerson Ipirajá não imaginava onde seu nome iria chegar. No município litorâneo, ele conheceu o artista plástico Zé Tarcísio, que lhe deu um trabalho – o qual Ipirajá faz até hoje, cuidando do acervo do artista – e mostrou-lhe que a arte também era um caminho possível de se trilhar.

Com a herança sanguínea da mãe desenhista de moda e do pai desenhista técnico de arquitetura, não demorou muito para o jovem se envolver também com as artes. De início, ele se aproximou do universo do teatro. Uma oficina realizada pelo Instituto Dragão do Mar em Canoa Quebrada (praia do município de Aracati), em 1996, apresentou a ele o mundo das artes plásticas, porém, voltadas para o teatro, onde começou a trabalhar desenvolvendo cenografias e ganhou prêmios.

Outra oficina do Dragão, ministrada em 1998 por Zé Tarcísio, permitiu-lhe o primeiro contato com a xilogravura e fez despertar em Ipirajá um interesse especial pela gravura. Em 1999, voltou a Fortaleza. “Eu sentia a necessidade de expandir o meu trabalho”, conta Ipirajá. O retorno lhe inseriu no circuito nacional das artes, com participações em diversos salões e bienais.

Apesar de também pintar e já ter trabalhado com escultura, sempre foi pela gravura que Ipirajá teve mais apreço e se destacou. Através do incentivo dos amigos e artistas plásticos Eduardo Eloy e Nauer Spídola, no início dos anos 2000, ele passou a enviar seus trabalhos para participar de mostras internacionais. Um deles foi selecionado para uma bienal na Romênia. “Isso deu um impulso na minha carreira, foi uma resposta positiva. Era um trabalho que estava passando por um júri que não havia relações pessoais, que é uma coisa que atrapalha muito as artes visuais”, ressalta o artista.

Em 2011, durante uma residência de xilogravura nos ateliês de Arte e Gravura do Museu de Arte Moderna (MAM) de Salvador, pela primeira vez teve contato na prática com as pedras e prensas litográficas. Desde então, Ipirajá vem desenvolvendo diversos trabalhos com a técnica, juntamente com outros cearenses do Coletivo InGrafika, criado em 2016. Ele integra ainda o Movimento Monólitos [coletivo de artistas gravadores criado em 2018].

Em mais uma certeza da boa aceitação do seu trabalho no circuito internacional, em 2017 Ipirajá participou de uma bienal na Polônia e teve uma gravura indicada ao grande prêmio. “Não ganhei, mas a indicação já funcionou como uma premiação”, comemora.

O cearense, que já tem seu nome estampado no catálogo virtual da exposição dos 75 anos da ONU, a partir de 2021 terá três obras suas como parte das coleções da entidade. “Não sou um artista que pensa no sucesso, eu penso no êxito. O sucesso é passageiro, escorre entre os dedos. Muitas vezes é fugaz. O êxito é algo mais alicerçado, mais do âmago, é uma realização íntima do existencial”, pontua Ipirajá.