Autora do livro “Conectados”, Patricia Bathory propõe novos olhares para o sucesso e para as relações que sustentam a vida

O início de um novo ano costuma abrir espaço para revisões sinceras, novos projetos e a vontade de reorganizar prioridades. É nesse clima de recomeço que o trabalho de Patricia Bathory ganha ainda mais potência. Após anos vivendo no Canadá, a autora de “Conectados” propõe uma redefinição de sucesso que se afasta da lógica da performance individual e se aproxima dos vínculos que sustentam a vida

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Dois mil e vinte e seis chega com um convite à reconstrução. Entre planos traçados, metas reformuladas e expectativas renovadas, cresce também a necessidade de refletir sobre o que, de fato, faz sentido levar adiante. É nesse contexto de abertura e possibilidades que o trabalho da cearense Patricia Bathory se destaca. Psicoterapeuta, empresária e pesquisadora das relações humanas, ela propõe uma reflexão sobre o que realmente sustenta uma vida bem-sucedida não como promessa abstrata, mas como prática cotidiana, com o lançamento do livro “Conectados”, que já ganhou lançamento em São Paulo e Fortaleza, e terá arrecadação das vendas destinadas ao Instituto de Música Jacques Klein (IMJK).

Em entrevista ao Tapis Rouge, Patricia fala sobre o conceito de “aldeia” e a articulação entre ciência, vivência clínica e experiência empresarial para mostrar que nenhuma conquista se sustenta sem vínculos sólidos. E ainda propõe um deslocamento simples e profundo: olhar menos para o que falta e mais para os laços que continuam de pé.

Tapis Rouge — Você nasceu em Fortaleza, mas viveu por vários anos no Canadá. Como foi essa jornada de idas e vindas até voltar à terra natal?
Patricia Bathory — É um vai e volta danado! Eu nasci no Ceará, morei um tempo em São Paulo, voltei para o Ceará e, aos 14 anos, fui para o Canadá. Toda a minha formação foi lá. Fiz o ensino fundamental, o ensino médio, a faculdade e o MBA no Canadá, porque minha primeira carreira é como empresária. Tenho uma exportadora aqui no Nordeste que funciona até hoje: exporto sucos do Ceará para os Estados Unidos, para empresas de marca própria. Então, eu sempre fui e voltei. Em algum momento, comecei a pensar como tinha sido importante para mim ter crescido no Canadá, ter vivido essa adolescência e essa entrada na vida adulta lá, e quis proporcionar isso para as minhas filhas. Convenci o marido — foi um processo (risos) — e nos mudamos em 2017. Minhas filhas fizeram o ensino médio lá, a mais velha se formou na faculdade no Canadá, e moramos lá por vários anos. Agora voltamos. Por isso, inclusive, o livro foi escrito originalmente em inglês. Minha formação em psicanálise foi feita no Brasil; me formei em 2017 e trabalhei um ano em um hospital psiquiátrico em São Paulo. Quando fui para o Canadá, não podia atuar como psicanalista: lá exigiam mestrado. Então pensei: “Se é mestrado que precisam, é mestrado que eu vou fazer”. Fiz o mestrado em Psicologia e passei a atender como psicóloga a partir de 2020, embora já atendesse no Brasil como psicanalista desde 2016.

TR — O que te fez voltar para Fortaleza?
Patricia — Fortaleza é o lugar onde eu mais me sinto em casa. E é curioso, porque se eu somar todos os anos que morei fora, eu morei mais tempo fora de Fortaleza do que aqui. Ainda assim, é onde eu nasci, onde fiz questão de que minhas duas filhas nascessem, onde meu marido nasceu, onde está toda a família do meu pai e onde fiz as maiores e melhores amizades da minha vida. Eu saí daqui com 14 anos, mas as minhas melhores amigas — a minha aldeia — são as mesmas daquela época. Isso é surreal. Quando você me pergunta qual é a minha memória afetiva de Fortaleza, a resposta é simples: eu sou daqui. Digo isso com orgulho. Fiz questão de lançar o livro aqui porque, de verdade, é onde eu sinto que é casa. Agora, voltando aos 50 anos, tenho a certeza de que é aqui que eu quero estar.

TR — Sua trajetória combina empreendedorismo, psicoterapia e pesquisa em relações humanas. Em que ponto da carreira essas áreas deixaram de caminhar separadas e passaram a se fortalecer mutuamente?
Patricia — Houve uma virada clara. Comecei minha carreira como empresária há 26 anos. Em janeiro de 2000 abri minha exportadora, e durante muitos anos foi só isso que fiz. Quando a empresa já tinha entre 10 e 15 anos, comecei a sentir que, embora gostasse do meu trabalho, queria impactar a vida das pessoas de forma mais direta. Era um trabalho comercial: eu vendia, o cliente comprava, e estava tudo certo. Mas eu queria dormir sabendo que tinha ajudado alguém a virar uma chave, a se entender melhor. Foi quase uma crise de meia-idade — uma crise construtiva. Eu estava com 37, 38 anos. Na época, vivia alguns desafios pessoais, estava em análise, e lembro de pensar: “Essa mulher transforma a minha vida”. Aquilo me tocou profundamente. Passei a desejar ser alguém que pudesse tocar outras vidas, não apenas ganhar dinheiro. Foi aí que comecei a estudar Psicologia. Não foi algo planejado para integrar tudo, mas naturalmente as coisas se conectaram. Por eu ter uma vivência empresarial, falar a linguagem corporativa e ter uma postura mais assertiva, muitos líderes começaram a me procurar. Eles diziam: “Você fala a minha língua”. Esse combo foi muito bem recebido por esse perfil de pacientes.

0301tr1302_5c_Easy Resize.com

TR — Você trabalha com líderes e empreendedores de alta performance. Que tipo de dilema você mais observa em profissionais bem-sucedidos que chegam até você?
Patricia — Pessoas que alcançaram sucesso financeiro e profissional e dizem: “Cheguei, mas não é como eu imaginava”. Existe uma sensação de falta. E, quando a gente investiga, o que aparece é o desequilíbrio entre as áreas da vida. Eles querem sucesso profissional, mas também querem que o cônjuge ainda goste deles depois de tantos anos. Querem que os filhos olhem nos olhos e digam: “Você é muito legal”. Querem amigos de infância presentes, relações verdadeiras. Isso aparece demais. Não sei se é um dilema universal ou se essas pessoas acabam me encontrando porque eu falo disso com naturalidade, mas vejo isso o tempo todo.

TR — Um termo que me chamou a atenção no livro é o conceito de aldeia. Pode explicar de onde veio essa ideia de falar de conexão que toca as relações pessoais e a competência empresarial?
Patricia — Vem de duas vertentes. A primeira é o ditado africano: ‘É preciso uma aldeia para criar uma criança’. Quando ouvi isso, fez todo sentido. Criar filhos envolve escola, família, amigos, terapeutas. Depois percebi que não é só para criar uma criança: é para ter sucesso em qualquer área da vida. Ao olhar para a minha história, vi que todo sucesso que tive — profissional ou pessoal — passou pelos meus relacionamentos. Quando comecei a atender em clínica, percebi que praticamente todos os conflitos eram relacionais: com cônjuges, filhos, chefes, subordinados, família. Ter uma aldeia exige habilidades que algumas pessoas já têm e outras precisam desenvolver. ‘Conectados’ nasce dessa pergunta: se a aldeia é essencial, como aprender a se relacionar melhor com ela?

TR — “Dar certo na vida” costuma ser associado a números e resultados financeiros. O que significa, então, ter sucesso?
Patricia — Definir sucesso é algo que revisito com quase todos os meus clientes. Muitos chegam dizendo: “Ganhei menos este ano, mas foi o melhor ano da minha vida”. Porque se reconectaram com os filhos, com o cônjuge, com os pais. Sucesso precisa de métricas, sim, mas métricas mais amplas. Às vezes, você ganha menos dinheiro, mas vive com mais presença, mais alegria, mais sentido. Uma vida precisa ser analisada porque uma vida não analisada perde muita riqueza.

TR — Olhando para sua trajetória até aqui, o que considera seu maior acerto?
Patricia — Meu maior sucesso é a minha família. Vou fazer 25 anos de casamento. Tenho um marido incrível, um parceiro encantador. Tenho duas filhas que gostam da minha companhia, gostam de estar conosco. Nós quatro nos bastamos. Viajamos juntos, rimos juntos. Também me dou bem com minha família de origem, com amigos de infância que estão comigo há décadas. Essa construção de vínculos é o maior tesouro da minha vida. Se ganho mais ou menos dinheiro, hoje isso é secundário. Sucesso, para mim, é essa rede de relações que sustenta tudo.

 

RELACIONADOS

PUBLICIDADE

POPULARES