Ator de “O Agente Secreto”, Robério Diógenes celebra indicações ao Oscar e fala da força do cinema e da arte na vida

Em entrevista ao Tapis Rouge, Robério Diógenes, o delegado Euclides de “O Agente Secreto”, revisita a carreira, marcada por persistência e inquietação. Em destaque no filme que representa o Brasil na corrida pelo Oscar 2026, o ator cearense fala sobre memória, apagamento e o papel do cinema como provocação necessária

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Entre lembranças da infância no Interior do Ceará, do colégio militar e de um set de filmagem que o levou ao centro do debate cultural brasileiro, o ator cearense Robério Diógenes fala de carreira, memória e do incômodo necessário que o cinema pode causar. Intérprete do delegado Euclides em “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho – filme que representa o Brasil no Oscar 2026, marcado para ocorrer em 15 de maço -, o ator falou Tapis Rouge, direto do Theatro José de Alencar (TJA), e passou uma importante lição sobre o legado da arte.

Do rigor militar à arte

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(Foto: Daniel Calvet)

Nascido em Parambu, município do Sertão de Inhamuns a cerca de 400 km de Fortaleza, Robério Diógenes deixou a cidade ainda criança para estudar na Capital, levado pelo pai, um comerciante, que via no Colégio Militar uma possibilidade de ascensão. O ambiente disciplinado contrastava com uma inquietação criativa que já se manifestava na infância, desde as brincadeiras performáticas que assustavam a ama de criação até o fascínio pelas poucas imagens que via na televisão. Antes mesmo de compreender o que era teatro, foi o circo itinerante e o cinema de rua que despertaram sua imaginação. “Eu ficava fascinado pelos palhaços, pelas bailarinas, pelos dramas. Aquilo era muito mágico”, recorda. Sem referências familiares na área artística, Robério se tornou um leitor voraz, colecionando gibis, revistas e edições de peças clássicas: “Eu sempre fui essa pessoa curiosa, que devorava conteúdo”.

O primeiro passo profissional veio no teatro universitário, culminando na estreia de “Blue Jeans”, em 1982. O sucesso do espetáculo precipitou uma decisão radical: tentar a vida artística no Rio de Janeiro. “Eu pensei: o que eu quero para mim? Ser jornalista ou ator profissional?”, lembra. No Rio, trabalhou como produtor para viabilizar projetos próprios, viajou com ações de arte e educação e acumulou experiências, mas não aquela consagração de “protagonista de novela”. “Não virei astro, não virei galã. Bateu aquela desistência”, confessa.

O retorno ao Ceará, porém, não significou uma ruptura com o fazer artístico. A virada veio no fim dos anos 1990, com o Colégio de Direção Teatral e o espetáculo Dois por Dois, que permaneceu dez anos em cartaz e lhe rendeu reconhecimento nacional e diversos prêmios. E ainda atuou em diversas produções audiovisuais, de teleaulas e comerciais a participações em “Onde Anda Você” (2004) e “Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito” (2008), “Cine Holiúdy” (2004), “Greta” (2019) e “O Filho Único do Meu Pai” (2021).

Euclides: o vilão possível

Selecionado após diversos testes para “O Agente Secreto”, Robério construiu o delegado Euclides a partir de experiências pessoais e transformou um delegado, inicialmente pernambucano, em um cearense que vai além de sua origem. “[Euclides] é uma miscelânea da minha vida: aquela rigidez do colégio militar, meu pai que até hoje não aceita que eu seja artista”, conta. Longe do vilão caricatural, o personagem provoca desconforto justamente por sua normalidade universal. “Ele é educado, articulado, eficiente. O humor vem da situação, do desconforto. Os horrores históricos não foram cometidos por monstros, mas por pessoas organizadas”, frisa. Isso traz como consequência a boa recepção popular, já perceptível com fantasias de Carnaval e até com o rosto estampado em camisetas – em breve disponíveis na loja on-line Mulher do Padre. “Isso era esperado. O filme mexe numa ferida que nunca cicatrizou. Ele incomoda porque não é panfletário. Ele sussurra”, pontua o artista.

“O Agente Secreto” está concorrendo ao Oscar 2026 na categoria inédita de Melhor Direção de Elenco, além de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Ator para Wagner Moura. “Vou fazer de tudo para ir a Los Angeles, na premiação do Oscar. Nem que eu fique só na entrada, comendo churrasquinho, vendo pela televisão e ouvindo ‘Eu Não Sou Cachorro Não’, do Waldick Soriano [risos]”.

O que ainda virá
A repercussão internacional, especialmente após o Festival de Cannes – onde o filme venceu como Melhor Direção e Melhor Ator para Wagner Moura, ampliou a visibilidade do ator, mas não alterou sua postura. “Visibilidade não muda o essencial. Eu continuo pagando boleto, fazendo testes”, declara.

Entre os próximos projetos está o longa “À Margem do Rio”, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, no qual interpreta um antagonista ainda mais complexo, e a segunda temporada da série “Cangaço Novo”, com estreia confirmada para 24 de abril de 2026 no Prime Video.

Sobre o que espera deixar como legado, Robério traz uma lição, retornando ao ponto central da conversa: “Se ‘O Agente Secreto’ ficar como registro, se provocar reflexão e desconforto, já cumpriu seu papel. Cinema é para inquietar”, conclui.

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