Assumir a forma natural dos cabelos é uma decisão difícil que requer muita paciência. Mas pode ser também uma libertação. A jornalista Pamela Lemos e a publicitária Tatiana Lima passaram pelo processo e hoje são apaixonadas pelos novos cabelos

Naara Vale
naaravale@ootimista.com.br

“Hoje consigo me reconhecer de novo com esse cabelo, me sinto empoderada de poder usá-lo como ele é”. “Eu sou extremamente feliz com o meu cabelo. Realmente amo e não é da boca para fora. E amo como ele é: um ser vivo, que tem vontade própria”. Os relatos são, respectivamente, da jornalista Pamela Lemos, 33, e da publicitária Tatiana Lima, 37. Ambas passaram mais de 15 anos fazendo procedimentos químicos para alisar os cabelos e hoje carregam suas cabeleiras naturais felizes da vida.

1301tr1301_5c
Pamela Lemos, jornalista

Para quem passou boa parte da vida alisando os cabelos, reassumi-los na sua forma natural é uma decisão, muitas vezes, difícil. Os motivos para tomar esta decisão são inúmeros. No caso da Pamela, foi uma questão de saúde. Depois de incontáveis procedimentos químicos a cada três ou quatro meses, seu cabelo começou a se partir ao meio. Em novembro de 2019, ela resolveu cortar bem curto, o chamado “big chop” (BC), que é o grande corte para se livrar de toda a química. “A sensação que eu tive de quando entrei no salão e sai, foi de ser uma outra pessoa”, lembra a jornalista.

A impossibilidade de sair de casa durante o isolamento por conta da pandemia também despertou em muitas mulheres a necessidade ou a vontade de assumir a forma natural dos seus cabelos. A cabelereira Carolina Mamede, do salão de beleza Rituale, conta que tem percebido um maior número de clientes se livrando das químicas. Para ela, muito disso é fruto das campanhas de autoaceitação e empoderamento feminino. “Eu não vejo que é uma pressão menor do mercado [em relação a ter o cabelo liso como padrão], eu vejo que é uma resistência maior das mulheres a cederem à pressão”, opina a cabelereira.

Rito de passagem

Fazer a transição capilar requer paciência e muita determinação. Uma boa dica é, antes de começar a fazê-la, conversar com quem já passou pelas fases iniciais, ver vídeos e buscar a ajuda profissional. “Não existe uma fórmula. Tudo depende da cliente e do momento que ela está vivendo. O ideal é que quando tomar a decisão, vá ao salão e converse com um profissional de confiança para decidir a melhor forma de fazer a transição. Se a cliente quer ficar com o cabelo curtinho para se livrar de vez da química, corta, se não, espera”, recomenda Carolina Mamede.

Para quem corta curtinho, a fase inicial de crescimento pode ser de estranhamento. “Você não lembra mais como era o seu cabelo, ele vai crescendo meio bagunçado e você fica naquela ansiedade de ver como vai ficar”, destaca Pamela Lemos. Carolina Mamede lembra ainda que é importante adaptar os cuidados e os produtos ao “novo tipo” de cabelo. Não por serem mais ou menos trabalhosos que os lisos, mas porque são cabelos e precisam de atenção para crescerem fortes, bonitos e saudáveis.

A transição de Tati

IMG_2901
Tatiana Lima – Antes

Os 17 anos que Tatiana passou alisando o cabelo foram de muita dedicação. “Foi muito investimento de tudo: de tempo, de dinheiro, emocional”, conta a publicitária, que muitas vezes deixou de ir a festas e encontros com amigos por estar com “a raiz crescida”. Há pouco mais de seis anos, ela começou a se incomodar por não saber como era o seu cabelo de verdade. “Quando comecei a ver que várias posturas, brincadeiras, rejeições que eu sofri enquanto criança e adolescente tinham como pano de fundo o racismo, aí foi que me deu mais vontade de me ver com o cabelo natural”, relata a publicitária. Ela aproveitou o tempo que passou em casa sem trabalhar para dar início à transição capilar.

1301tr1303_3c
Tatiana Lima – Depois

Foram 11 meses vendo o cabelo crescer sem alisamentos até fazer o big chop. “O dia que eu fui cortar foi muito emocionante, eu estava muito nervosa. Cortei o cabelo de costas para o espelho e só virei quando ela terminou. Lembro muito da sensação de alívio, saiu um peso das minhas costas”, relembra. “Eu me dedicava muito para que meu cabelo não fosse um liso estragado. Hoje eu tenho pouquíssimo trabalho em relação ao que eu tinha. Se você quer ter um cabelo bonito e saudável, ele vai dar trabalho independente de ser liso, natural, tingido ou crespo”, pontua Tatiana.