Especialistas comentam legado de “O Diabo Veste Prada”, cuja sequência estreia nesta quinta (30), aliando memória afetiva e elenco estelar

Duas décadas após o primeiro e bem-sucedido longa, “O Diabo Veste Prada” retorna aos cinemas com uma sequência que revisita seu universo para reaproximar fãs saudosos e dialogar com uma nova geração de espectadores. Especialistas falam ao Tapis Rouge sobre o peso da sequência, que estreia hoje (30), trazendo de volta Anne Hathaway e Meryl Streep

Onivaldo Neto
onivaldo@ootimista.com.br

Anos após nos ensinar que o azul cerúleo não é apenas uma cor, mas uma declaração de intenções, Miranda Priestly, a editora-chefe mais temida da ficção, está pronta para retomar seu trono na sétima arte. Interpretada por Meryl Streep, a lendária “anti-heroína” retorna na aguardada sequência de “O Diabo Veste Prada”, que entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (30). Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci também voltam à produção, formando um quarteto insuperável, pronto para enfrentar os desafios contemporâneos do mercado editorial de moda diante dos algoritmos, da inteligência artificial, das tendências fugazes e dos interesses corporativos. Entre o brilho das passarelas e as sombras dos bastidores, o novo capítulo da trama, dirigido por David Frankel, promete atualizar — sem suavizar — o preço para se manter no topo.

Runway 2.0
Assim como no primeiro longa, o enredo do novo filme se desenvolve a partir de Andy Sachs (Anne Hathaway), agora 20 anos mais velha. A jovem aspirante a jornalista que conhecemos em 2006 deu lugar a uma profissional experiente e confiante, com vasta trajetória em reportagem de campo. Apesar do êxito na carreira, Andy não escapa de um layoff no jornal em que trabalhava. Por mais inoportuna que pareça a situação, o revés acaba abrindo caminho para seu retorno à revista Runway, onde volta a trabalhar com Miranda Priestly, a mais temida editora-chefe do mundo da moda. Com a ajuda de Nigel (Stanley Tucci) e Emily Charlton (Emily Blunt) – agora uma importante executiva de luxo –, elas correm contra o tempo para encontrar uma forma de atravessar uma crise de imagem que o veículo enfrenta e a crescente decadência das publicações impressas, buscando soluções sem descer do salto nem perder o glamour.

Sob a ótica de especialistas
Além de “O Diabo Veste Prada”, outras continuações de grandes clássicos do cinema estão ou já saíram do papel e ganharam as telonas. Marcelo Mobilete, crítico de cinema, explica que essa atual “moda” na indústria cinematográfica está relacionada a uma crise criativa, motivada pela concorrência com o streaming. “São muitas plataformas demandando por produção constante de conteúdo. Além disso, o custo de produção também aumentou muito nos últimos tempos. Por isso, os estúdios recorrem a franquias já consagradas para garantir, pelo processo nostálgico, a presença do público nos cinemas”, expõe.

Marcelo ainda observa que repetir a fórmula que consagrou o primeiro longa pode comprometer o êxito da sequência, tornando-a superficial. “É muito comum que as franquias comecem a se desgastar porque a mesma fórmula é reprisada. O público vai se cansando daquela ideia original que o levou a gostar da obra. Temos alguns exemplos de continuações que fizeram tanto sucesso como o original porque havia uma história já pensada. Quando há um hiato e o estúdio decide fazer uma continuação em razão do sucesso comercial é mais fácil de o erro acontecer”, comenta Mobilete.

Contudo, o crítico acredita que o longa fará sucesso em todo o mundo. “Essa sequência vem carregada de nostalgia, mantendo as premissas originais. Especificamente quanto a esse filme, porque ele retrata o universo da moda, há muita história a ser contada. Além do apelo comercial, há também o talento das atrizes e atores do núcleo principal da produção que estão de volta. São excelentes, ainda mais maduros, mais consagrados”, discorre.

O apelo visual e estético é um importante fator para o desempenho positivo do filme entre crítica e público. O PHD em Artes e Mestre em Moda, Cultura e Arte, Ricardo Bessa, relembra que o impacto cultural que o primeiro longa possui até hoje se deve, em grande parte, ao figurino. “Patrícia Field, figurinista do filme original, soube interpretar as tendências e a cultura de moda da época numa história muito boa, que consagrou uma visão do mundo da moda e seu tempo. Cultura de moda precisa ser alimentada por novidades e, como a própria moda muda o tempo todo, lançando novas estéticas e modelos”, aponta.

Para essa nova fase, o professor universitário acredita que não houve grandes desafios em relação à concepção das vestimentas dos personagens. “A identidade dos personagens foi mantida com suas características trabalhadas no primeiro filme. Quando se trabalha com figurinos, cada personagem é estudado, com características que são discutidas entre figurinista, diretores e atores em muitos casos. As características já estavam criadas, então não foi difícil, eu creio. A figurinista da continuação é Molly Rogers, que poderia ter mudado tudo, mas não se muda o time que está ganhando”, analisa Ricardo.

O mesmo não pode ser dito quanto às roupas usadas pelas atrizes nas premières do filme ao redor do Globo. Usuários nas redes sociais e fãs da mini-franquia criticaram as escolhas de looks usados, principalmente, por Meryl Streep e Anne Hathaway, em algumas ocasiões. Entre as principais queixas estava a falta de conexão das roupas usadas pelas artistas com a estética e a narrativa do filme. Essa estratégia, chamada de “Method Dress”, busca transportar o universo da produção para o tapete vermelho. Apesar de gerar descontentamento, as escolhas dos figurinos fazem parte de jogadas de marketing, segundo o docente do curso de Design de Moda da Unifor. “São looks de grandes marcas, incluindo uma grife e joalheria brasileiras. Os looks usados na divulgação de filmes, tanto nos próprios filmes quanto em eventos de promoção, desempenham um papel crucial no marketing cinematográfico, funcionando como uma extensão da narrativa, criando ícones visuais e influenciando tendências de moda”, examina Bessa.

O closet do diabo

Émerson Maranhão, jornalista, roteirista e diretor de cinema

É preciso muito esforço para torcer por Andy Sachs, a heroína de “O Diabo Veste Prada 2”, aguardada superprodução que estreia hoje nos cinemas brasileiros. E mesmo que o espectador se empenhe para tal, a tarefa é de dificílima execução.

A personagem interpretada por Anne Hathaway, de longe, é a menos interessante da sequência do grande sucesso lançado há 20 anos. Ainda que caiba a ela, mais uma vez, a missão oficial de nos conduzir através da trama, dirigida novamente por David Frankel. E que Hathaway esteja linda e deslumbrante, por óbvio.

A referência às duas décadas que separam ambos os filmes, tanto diegeticamente quanto no “mundo real”, não é à toa. Pelo contrário, ela é determinante para denunciar as fragilidades na construção dramática de Andy, o que é lamentável.

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Se no título de 2006, a personagem era uma ingênua aspirante a jornalista, em começo de carreira, na sequência inicial do filme de 2026 a encontramos já como uma premiadíssima – e destemida – repórter, com uma trajetória consolidada, que passou 15 dos últimos 20 anos, “longe de Nova York, em busca de boas histórias para contar”. Bingo! Nada mais natural que a personagem apresente esse amadurecimento pessoal e profissional depois de um intervalo de tanto tempo.

Acontece que a dupla de roteiristas, Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger, parece ter esquecido dessa “mudança de chave” já na sequência seguinte, quando um acaso leva Andy de volta a trabalhar na revista Runway, ao lado da toda poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep, espetacular como sempre) e do diretor de arte – e anjo de guarda mal disfarçado – Nigel Kipling (Stanley Tucci, no tom exato do personagem!).

Ao pisar na Redação da revista, como que num passe de mágica, Andy praticamente transforma-se numa adolescente insegura, apesar dos presumíveis 40 e tantos anos de idade e tantos prêmios no currículo. A partir daí, sua única motivação é buscar a aprovação de sua musa e algoz, situação que o fim do primeiro filme já sinalizava ter se resolvido, como bem sabemos.

Mas é esta mocinha inverossímil e “fora de época”, chamemos assim, que conduz a história. Uma trama repleta de soluções esquemáticas, que não tem o menor pudor de abusar de clichês – dos românticos aos morais (não é mesmo, Emily?). Nada que difira, muito, de determinado padrão de cinema hollywoodiano, é certo. Mas nem por isso, louvável.

Ah, quer dizer que “O Diabo Veste Prada 2” é um filme ruim? Em absoluto! É um filme divertido. Principalmente, mas não só, para fashionistas e afins (por motivos óbvios). Há, ainda, que se reconhecer a excelência dos personagens de Miranda e Nigel e suas tiradas impagáveis (que, sim, requerem sinapse e repertório para serem devidamente usufruídas, talvez, por isso mesmo, sejam o crème de la crème do filme).

À guisa de exemplo, as cenas de Miranda se controlando – e sendo controlada – nas reuniões de pauta para não escorregar e incorrer no “politicamente incorreto corporativo” são maravilhosas, justamente por mostrar o quão ineficientes são determinadas “normatizações”. Algumas outras boas sacadas do roteiro são a maneira como olha para a crise do jornalismo impresso diante do advento do digital e a possibilidade da promoção (mudança de função) da editora-chefe, numa referência à trajetória da jornalista que supostamente lhe inspirou, da mesma maneira que a citação indireta ao livro que deu origem a “tudo isso”).

Para quem espera uma boa “Sessão da Tarde”, “O Diabo Veste Prada 2” é uma excelente opção. Para os que se digladiarão na gincana de identificar referências e participações fashionistas – de Donattela (Versace) a (Domenico) Dolce – mais ainda. Para os amantes de diálogos afiados, a partir de uma vilania aparente e dúbia, tudo certíssimo. Para quem espera um roteiro inteligente e surpreendente… Aí, talvez seja querer demais.

Reinvenção sob medida 

Onivaldo Neto, jornalista

Caro leitor, antes de mais nada, preciso adverti-lo que esta resenha da sequência de “O Diabo Veste Prada” possui uma intencional escassez de imparcialidade. Tentei, ao máximo, suprimir a opinião da criança LGBT+ que cresceu devoto ao clássico e icônico primeiro filme de 2006, mas, ainda sim, sua voz resistiu em minha mente. Contudo, garanto que não abandonei a razoabilidade por inteiro, afinal, essa ainda é uma análise crítica. As expectativas – minhas e de milhões de fãs – para o novo longa estrelado não eram baixas, muito menos poucas.

Com êxito, todas elas foram superadas ou atendidas, em menor ou maior grau. No geral, três adjetivos não saem da minha cabeça quando penso em como definiria a sequência: divertida, cativante e envolvente. Com lugar garantido no hall de clássicos de Hollywood, o filme constantemente se autorreferência, mas o faz de maneira brilhante, sem pesar a mão e pecar pelo exagero. Acenos, maneirismos, movimentos e falas icônicas que tornaram o longa original uma importante peça da cultura pop estão inseridos no filme de forma atualizada e otimizada, funcionando muito bem para os moldes atuais e para a trama em si.

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Quem poderia imaginar que Miranda Priestly penduraria ela mesma o seu próprio casaco? Bem, a sequência imaginou e tornou isso realidade. O filme não ignorou o politicamente correto, muito pelo contrário, usou esse conjunto de normas de linguagem e comportamentos a seu favor. Miranda ainda é a mesma, mas agora com um pouco mais de consciência e menos ferina. E não só ela. Andy, Emily e Nigel também tiveram a essência preservada. Apesar de agora mais maduros, experientes e sábios – como não poderia deixar de ser com a passagem de 20 anos –, Andy ainda come beagle, Emily não parou de esconder os sentimentos e Nigel não abandonou seu delicioso criticismo.

As novas adições ao elenco também são acertos importantes para o sucesso da narrativa do filme. As características que nos fizeram amar os personagens principais se estendem a novos rostos, novos corpos e etnias. Antes brancas, magras e padrões, as “Emilys” agora são um homem gordo e uma mulher racializada. Essa escolha de atores reforça a importância da diversidade e da inclusão na sétima arte, além de garantir que mais pessoas, de diferentes gerações, se identifiquem e se reconheçam na produção.

O filme também acerta em cheio na trilha sonora, que incorpora faixas de Dua Lipa, Miley Cyrus e Lady Gaga, entre outros nomes. O repertório inédito — incluindo a potente “Runway”, de Gaga com a rapper Doechii — não apenas reforça a atmosfera glamourosa e divertida da narrativa, como ancora a sequência no presente. Em coro ao aspecto sonoro, o figurino da produção também aposta em tendências contemporâneas, como o “quiet luxury”. Mesmo definitivamente menos “barulhento” do que a seleção de 2006, o novo guarda-roupa da franquia entrega ótimos momentos, como o imponente vestido vermelho Balenciaga usado por Streep nos posters de divulgação e no primeiro ato do longa.

Como impressão derradeira, afirmo que pretendo mergulhar novamente nessa história no cinema. Quando a sessão terminou, a sensação era a de ter voltado de uma viagem no tempo, mas sem deixar o presente. Rever esse universo foi reencontrar uma narrativa que preserva seu charme original ao mesmo tempo em que revela novas camadas. E arrisco dizer: expandi-lo para uma série não seria má ideia. Parafraseando Miranda, ainda que subvertendo a intencionalidade de sua célebre frase: “Todo mundo quer isso!”.

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