Fotógrafo Glauco Chacon celebra a carreira e fala da reinvenção que o transformou em referência no seguimento de retratos

Dono de uma carreira extensa, conheça o fotógrafo cearense Glauco Chacon, que atravessou gerações, superou a revolução digital e foi escolhido para registrar as imagens oficiais dos parlamentares da Assembleia Legislativa do Estado do Ceará

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Na rua Pinto Madeira, no coração da Aldeota, o Studio Chacon parece correr num ritmo diferente, em meio a equipamentos fotográficos ultramodernos e molduras de fotos impressas. Na verdade, a história da fotografia cearense se confunde com a trajetória do dono do espaço, Glauco Chacon. Filho do fotógrafo Ariosmar Simões Chacon e criado entre câmeras e negativos, o empresário transformou uma herança familiar em ofício, enfrentou a queda do analógico, reinventou o negócio e hoje assina um dos mais importantes acervos visuais da política local: os retratos oficiais dos deputados estaduais na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece).

A relação com a fotografia começou antes mesmo da escolha profissional. O estúdio da família foi fundado em 1970, mas o pai já fotografava desde os anos 1960. Crescido nesse ambiente, Glauco assumiu naturalmente a continuidade do negócio. “Minha carteira de trabalho foi assinada aqui aos 16 anos”, relembra. A familiaridade com a câmera surgiu ainda na infância: “Eu era o fotógrafo do grupo de amigos, sempre com a câmera no bolso. Mal sabia que já estava treinando o meu olhar”.

Apesar da herança direta, a identidade estética própria levou tempo para se firmar. Enquanto o pai transitava por paisagens e registros aéreos, Glauco encontrou seu território no retrato humano. “Minha pegada sempre foi gente. Família, crianças, mulheres… o retrato foi me levando naturalmente”, detalha o profissional. O aprendizado incluiu divergências criativas dentro do próprio estúdio: “Às vezes eu expulsava meu pai para fazer do meu jeito, mas também aprendi muito observando ele”, brinca.

Desafios

A virada do milênio trouxe o maior desafio da carreira: o fim abrupto do modelo analógico. A chegada da fotografia digital provocou uma quebra estrutural no setor e levou inúmeros laboratórios de Fortaleza ao fechamento. “Não foi uma mudança gradual: em dois ou três anos acabou tudo”, relembra Glauco. O impacto atingiu toda a cadeia produtiva, da venda de filmes e químicos ao papel fotográfico e equipamentos. “Era uma indústria gigantesca por trás do filme, e, quando caiu, levou muita gente junto”, lamenta.

Alece
A reinvenção encontrou um novo eixo no retrato institucional e político. Com décadas de experiência em fotografia de pessoas, Glauco consolidou-se como referência nesse campo, especialmente na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Após o incêndio que atingiu o prédio e motivou a modernização dos espaços, em 2024, ele participou da renovação da galeria oficial dos parlamentares. “Eu já sugeria que a galeria precisava ser atualizada. Depois do incêndio, fizeram um projeto moderno com fotos minhas e do meu pai, e se tornou um acervo importante para o estúdio”.

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(Foto: Edimar Soares)

O trabalho vai além da técnica fotográfica: envolve sensibilidade, escuta e gestão. Para Glauco, fotografar — figuras públicas ou clientes e buscam o estúdio — exige habilidade relacional e leitura emocional. “A fotografia não é só apertar o botão: você lida com inseguranças. Às vezes é um trabalho de psicólogo”, reflete. Segundo ele, a sessão fotográfica tornou-se também um espaço de diálogo e acolhimento: “Da pandemia para cá, virou quase uma terapia. As pessoas contam histórias, se emocionam, e isso ajuda a criar imagens mais verdadeiras”.

Hoje, ao percorrer os corredores da Alece e ver retratos que atravessam décadas, o fotógrafo reconhece a dimensão histórica do próprio trabalho. Seu acervo documenta mudanças políticas, transformações sociais e trajetórias individuais que compõem a memória institucional do Ceará: “A prática vai aprimorando o olhar. Não existe perfeição, mas, sim, evolução”, diz Glauco Chacon.

Entre negativos, arquivos digitais e rostos que contam histórias, Glauco segue fotografando com a mesma curiosidade do adolescente que carregava uma câmera no bolso. Sua lente não registra apenas pessoas: preserva o tempo, constrói memória e reafirma o poder do retrato como testemunho humano e político, deixando um legado que, talvez, o senhor Ariosmar sequer imaginava se perpetuar.

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