“Taxi Driver”: as bodas de ouro de um clássico da sétima arte

Completando 50 anos, “Taxi Driver” mostra Travis Bickle, veterano do Vietnã, tentando encontrar sentido em uma Nova York caótica, que reflete traumas e solidão. Cada rua e personagem intensificam sua obsessão por ordem e limpeza, revelando fúria e fragilidade em medidas iguais. Essa tensão transformou o cinema, influenciando gerações e consolidando Martin Scorsese como um mestre da narrativa moderna

Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br

Começar a explorar os clássicos do cinema leva inevitavelmente a “Taxi Driver”, de Martin Scorsese, lançado em 1976. A obra se insere no contexto do pós-Vietnã, investigando não a guerra em si, mas as consequências profundas sobre aqueles que retornaram e tentaram se reintegrar a uma sociedade em transformação. Enquanto filmes como “Rambo” (1982), “Platoon” (1986) e “Apocalypse Now” (1976) expõem o conflito de forma explícita, Scorsese concentra-se na dimensão psicológica, mostrando o efeito do trauma sobre um indivíduo imerso no caos urbano de Nova York.

O protagonista, Travis Bickle, vivido magicamente por Robert De Niro, é um veterano que trabalha como taxista nas ruas da cidade. Ele não precisa repetir constantemente que foi soldado; sua experiência de guerra se revela na forma como ele observa e reage ao ambiente ao seu redor. Para Travis, Nova York é um espaço degradado, violento e caótico, e ele sente a necessidade de purificá-la, expulsando tudo que considera degenerado, como moradores de rua, prostitutas e criminosos. Essa visão obsessiva de ordem e limpeza reflete tanto os traumas do passado quanto sua solidão e o sentimento de não pertencimento, tornando-o um observador perturbador do mundo.

Construção cuidadosa
A construção do personagem se combina intimamente com as escolhas técnicas de Scorsese. A montagem enfatiza Travis invadindo o espaço alheio, enquanto seu próprio território permanece intocado, revelando o controle obsessivo e o isolamento do protagonista. A câmera alterna entre ruas caóticas e interiores sufocantes, contrastando o submundo da cidade com a rigidez moral que Travis projeta sobre ele.

Nesse cenário, figuras como a jovem Iris, interpretada por Jodie Foster, aparecem como símbolos de vulnerabilidade e inocência, despertando no taxista uma mistura de proteção e frustração. A repulsa que ele sente pelo que julga ser a escória moral do mundo (prostitutas, traficantes, viciados, criminosos) é extrema, pois Travis não encara a realidade como ela é, mas como deveria ser segundo sua visão distorcida.

O efeito dessas escolhas se amplia na experiência do espectador. Cada enquadramento, ângulo e composição reforça a solidão e a tensão interna do protagonista, tornando a obra não apenas um retrato psicológico, mas uma experiência sensorial. As interações de Travis com outros personagens, como a icônica cena do telefonema ou a aproximação com a mulher por quem se interessa, revelam seu desajeito e a impossibilidade de se conectar de forma natural com o mundo.

Atemporalidade
Décadas depois, “Taxi Driver” permanece surpreendentemente atual. O isolamento das pessoas aumentou, encontros reais se tornaram raros, e relações sociais se tornaram mais superficiais, mediadas por redes sociais ou convenções formais. Travis poderia perfeitamente habitar o século 21: seu fanatismo, extremismo e dificuldade de empatia refletem problemas contemporâneos, como polarização e hostilidade à distância.

Consequentemente, 50 anos depois, a obra se mantém viva e inquietante porque combina narrativa, personagem e técnica cinematográfica de forma absoluta, mostrando que o cinema de Scorsese não apenas retrata seu tempo, mas ilumina questões universais da solidão, da obsessão e da violência. “Taxi Driver” é, assim, um retrato intenso, poderoso e essencial da modernidade. Infelizmente (?).

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