Com lançamento hoje (4), “A Praia do Fim do Mundo” revela Petrus Cariry em pleno controle das imagens. Ao Tapis Rouge, o cineasta e a protagonista Marcélia Cartaxo detalham processo de criação da obra, que surpreende e assusta aqueles que não sabem o que os espera do outro lado da tela
Gabriel Amora
amoragabriel@ootimista.com.br
Petrus Cariry é um diretor que, embora goste de falar sobre suas obras, se expressa com poucas palavras nos universos que cria. Um dos grandes méritos de sua Trilogia da Morte — “O Grão”, “Mãe e Filha” e “Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois” — é o mistério que permeia cada narrativa. Com diálogos contidos e foco na contemplação, Petrus se destaca, confiando que as imagens são fundamentais para contar histórias que respeitam a inteligência e a interpretação do público.
Essa mesma confiança guia seu mais recente trabalho, “A Praia do Fim do Mundo”, que estreia nesta quinta-feira (4), com sessão especial seguida de debate no Cinema do Dragão do Mar. Com as presenças do diretor e da atriz Fátima Macedo, a sessão ocorre na Sala 2 do Cinema. Em entrevista exclusiva ao Tapis Rouge, o diretor afirma que a estética do longa se inspira na pintura “Jonas e a Baleia”, de Pieter Lastman. “A tela inicial que abre a narrativa fala muito sobre os caminhos do projeto, tanto em termos de alegoria quanto de mise en scène, dessa procura pela pintura que eu tanto almejei”, explica.
Sobre a criação, Petrus conta: “Eu escrevi a história rápido com o Firmino Holanda e também foi gravada de forma rápida. É uma junção de todos os meus trabalhos anteriores, mas mais refinada. Foi muito bom. Estar gravando com tanta vontade, apesar de ser no final da pandemia, foi muito enriquecedor”.
O diretor destaca ainda a parceria com Marcélia Cartaxo, atriz que marcou sua infância com “A Hora da Estrela”, de 1985: “Era um sonho meu trabalhar com ela, e, no ‘A Praia’, ela foi fantástica. Entrega muito, é precisa no gesto, no olhar, no corpo. Compreendeu que essa performance foi diferente de tudo que já havia feito”.
Também à reportagem, Marcélia reforça a intensidade da experiência: “Fazer essa produção foi um sonho, e depois percebi isso com a exibição. Foi muito metafórico, sensorial. É uma história de silêncio, espera e memórias. Petrus faz com que a imagem por si só comunique muito”.
O que é a Praia do Fim do Mundo?
Belissimamente fotografado em preto e branco pelo próprio Petrus Cariry, “A Praia do Fim do Mundo” se inicia com uma praia do Ceará sendo engolida pelo mar. Uma mãe, vivida pela sempre competente Marcélia Cartaxo, e uma filha, a ótima surpresa Fátima Macedo, discutem se devem permanecer ali. A jovem deseja partir para escapar do perigo, enquanto a mãe, presa às memórias do lugar, decide ficar. Essa tensão entre preservação e adaptação reflete as obsessões e dilemas recorrentes na obra do diretor.
O formato 1,37:1 e a escolha pelo preto e branco intensificam o clima ameaçador. Imagem e som se entrelaçam para contar a história com força e sutileza, transmitindo emoções e atmosferas sem depender de diálogos excessivos. A narrativa também conversa com trabalhos anteriores de Petrus, como “A Jangada de Welles” e “O Barco”, nos quais o mar assume o papel de antagonista simbólico.
Como destacou acertadamente o crítico de cinema cearense Ailton Monteiro, em seu blog, no fundo, o filme oferece um retrato sensível do Brasil: um país de fantasmas e dilemas, marcado pela destruição, mas ainda ligado à esperança e ao pertencimento. Por essas e outras, através do rigor estético e sensibilidade narrativa, “A Praia do Fim do Mundo” confirma Petrus Cariry como um dos cineastas cearenses mais relevantes do século 21.
serviço
Filme “A Praia do Fim do Mundo”
Estreia nesta quinta-feira (4), com exibição especial no Cinema do Dragão, às 19h30
Mistério/Terror
Duração: 1h 28m


















