Exclusivo: Raphael Montes celebra sucesso literário no Brasil, fala das adaptações dos livros para o audiovisual e próximos projetos

Escritor de suspense, roteirista e detentor da marca de um milhão de exemplares vendidos, Raphael Montes fala ao Tapis Rouge sobre a trajetória até se consolidar como um dos nomes mais promissores da nova geração de autores brasileiros, além dos projetos recentes, outras frentes de trabalho que tem atuado e cancelamento

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Esses dias, uma amiga relatou ter ido madrugada adentro lendo um livro que estava lhe tirando o sono. O título em questão era “Dias Perfeito”s, do escritor carioca Raphael Montes — obra que acaba de virar série para o Globoplay, em oito episódios, e que já figura no topo de produções mais vistas do serviço de streaming. A amiga leitora não está sozinha nas madrugadas. Prova disso é a recém-alcançada marca de um milhão de livros vendidos por ele — feito e tanto para um escritor brasileiro.

“Fico muito feliz e honrado em fazer parte desse momento tão importante da literatura brasileira. Hoje, temos vários autores nacionais ocupando as listas de mais vendidos, como Itamar Vieira Júnior, Carla Madeira, Socorro Acioli”, afirma o escritor ao Tapis Rouge.

Aos 34 anos, Raphael tem colecionado feitos nas listas de livros mais vendidos e no audiovisual. Seja com a história eletrizante da carne de gaivota em “Jantar Secreto”, ou em festas por todo o Brasil para acompanhar o último capítulo da novela “Beleza Fatal”, escrita por ele e a primeira produção do gênero para o streaming HBO Max. “Foi bastante proposital a ideia de criar temas fortes, personagens ousados e falas compartilháveis […] Mas chegou um ponto em que a coisa ultrapassou o pensado e virou o imponderável. Nunca tinha imaginado que a gente teria o País parando, fechando bares, para assistir ao último capítulo”, celebra.

Sucesso também nas redes sociais, o escritor e roteirista diz não temer a cultura do cancelamento: “Faz parte do trabalho do escritor correr riscos, especialmente quando se escreve literatura de crimes, cutucando nas feridas”. Em entrevista exclusiva, fala sobre o sucesso, a repercussão entre os jovens leitores e garante estar escrevendo um novo livro. A parte ruim é que não há previsão de lançamento. Confira!

Tapis Rouge – Vamos começar pela recém estreada série do livro “Dias Perfeitos”. Como foi adaptar esse projeto para o audiovisual? Está satisfeito com o resultado?
Raphael Montes – ‘Dias Perfeitos’ foi o livro que me permitiu sair da carreira de advogado e viver de ser escritor. Foi meu segundo livro lançado, e, quando saiu em 2014, fez muito sucesso. Entrou na lista de mais vendidos e foi traduzido em várias línguas. Tenho muito carinho por ele porque foi o livro que me permitiu viver do sonho de ser escritor no Brasil, que, infelizmente, a gente ainda lê tão pouco. Então, sem dúvida, estava muito animado para ver essa história, que já emocionou, surpreendeu e deixou muita gente tensa, ganhar as telas. A série foi adaptada pela Cláudia Jouvin e dirigida pela Joana Jabace, mas acompanhei de perto todo o processo de adaptação como consultor criativo. Nessa medida, conversei bastante com a Cláudia sobre o livro, sobre o que eu achava que precisava estar na série, e ela trouxe ideias brilhantes. Li todos os roteiros, dei notas, participei das reuniões. Mas, mesmo tendo participado de tudo isso, quando assisti à série pela primeira vez, eu chorei. Pensei: ‘Que legal! Uma história que escrevi aos 23 anos, sem saber se daria certo, cheio de medos e incertezas, se realizou e se realizou tão bem’.

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Beleza Fatal contou com Camila Pitanga e grande elenco (Foto: Victor Pratavieira/Divulgação)

TR – Ainda sobre projetos recentes, temos “Beleza Fatal”. A novela foi um sucesso enorme e viralizou nas redes, com festas, memes, fantasias de Carnaval… Imaginava que tomaria essa proporção?
Raphael – Foi muito emocionante. Antes de ser um novelista, sou um noveleiro! Cresci assistindo novelas e sempre quis escrever novelas. Quando a HBO me convidou para criar a primeira novela da HBO Max, me pareceu uma grande oportunidade para pensar o que seria uma novela no streaming. Pra mim, ela tinha que homenagear o formato clássico, que fazemos tão bem, com grandes autores, como Gilberto Braga, Silvio de Abreu, Aguinaldo Silva, Glória Perez, mas também trazer algo novo, fresco, que só o streaming permite. Desde o início, queria que ‘Beleza Fatal’ fosse uma novela do futuro: que trouxesse discussões muito atuais. Outro desafio era pensar na maneira que as pessoas iam assistir à novela. Enquanto na TV aberta você liga a televisão e a novela está passando, no streaming eu preciso que o público clicasse para ver a cada semana. E mais: o público da HBO Max é menor do que o da TV aberta. Eu precisava que as pessoas quisessem começar a ver no manancial de projetos e séries que o streaming oferece. Para tudo isso, me pareceu que eu precisava criar uma novela que chegasse ‘chutando a porta’, que fosse muito ousada e gerasse conversa, de modo que sairia do espaço da tela e faria as pessoas conversassem sobre isso. Foi bastante proposital a ideia de criar temas fortes, personagens ousados e falas compartilháveis. Especialmente com a Camila Pitanga e a Camila Queiroz, para entender o que poderia viralizar, virar meme… Mas chegou um ponto em que a coisa ultrapassou o pensado e virou o imponderável. Nunca tinha imaginado que a gente teria o País parando, fechando bares, para assistir ao último capítulo. A partir de dado momento, foi a emoção da plateia que levantou a história de tal modo que ninguém esperava.

TR – Pode-se dizer que você foi para o tudo ou nada.
Raphael – A graça do artista é correr riscos. Na medida em que se corre riscos, às vezes você acerta e às vezes você erra. É melhor errar tentando algo arriscado do que sempre acertar fazendo o básico.

TR – Recentemente, “Jantar Secreto” voltou à lista dos mais vendidos do “O Globo”, mas você aparece com frequência nesses rankings, seja de bienais ou da Amazon. Por que acha que seus livros têm gerado tanto interesse?
Raphael – Olha, primeiro acho engraçado você dizer que eu ‘sempre’ apareço, porque no começo não era assim! Foi um trabalho de construção. Muita gente via a literatura brasileira como algo chato, para poucos. Eu comecei contando as histórias que gostaria de ler, e, felizmente, elas começaram a ganhar o coração dos leitores. Hoje, a gente vive um fenômeno muito interessante nas redes sociais, especialmente com o TikTok e o Instagram, com os leitores comentando sobre livros e, nesse sentido, ‘Jantar Secreto’ viralizou nas redes sociais e voltou para essas listas, você tem razão. Mas é algo como ‘Beleza Fatal’, que as pessoas dizem: ‘Se você não leu, está perdendo!’. Acho que o que faz as pessoas gostarem das minhas histórias é que elas não conseguem parar de ler. E, além disso, são livros que, ao final, a história mexe com você de algum modo e que você precisa falar com alguém sobre isso. As pessoas conversam e querem saber quem mais leu, falar dos personagens e debater. Isso me deixa muito feliz!

TR – Falando em leitores, você comentou sobre o Brasil ainda ser um País que lê pouco, mas tem sido um desbravador nesse cenário. Como vê esse momento?
Raphael – Fico muito feliz e honrado em fazer parte desse momento tão importante da literatura brasileira. Hoje, temos vários autores nacionais ocupando as listas de mais vendidos, como Itamar Vieira Júnior, Carla Madeira, Socorro Acioli, entre outros, e contando histórias brasileiras. No começo da minha carreira, diziam que suspense bom só funcionava na Europa ou nos EUA, que o Brasil ‘não combinava’ com o gênero. E eu fui mostrando que é possível escrever suspense no Brasil, com personagens e dilemas brasileiros, com a nossa cultura e as nossas questões.

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Grazi Massafera protagoniza Uma Família Feliz, derivado de livro homônimo (Foto: Divulgação)

TR – Você aborda temas ousados e controversos. Diante disso, teme ser mal interpretado ou “cancelado”?
Raphael – A cultura do cancelamento é um fenômeno burro e perigoso. É um efeito manada nas redes sociais que decide excluir uma pessoa por qualquer motivo que seja. É um tema que me preocupa tanto, que escrevi um livro sobre isso: ‘Uma Família Feliz’, que começa com uma mulher extirpada do condomínio onde mora por causa de um cancelamento. É um tema que me interessa e me preocupa. Quando você é artista, está exposto. E não existe unanimidade! Inevitavelmente, algumas pessoas vão interpretar diferente, não vão gostar, e isto é incontrolável. Eu lamento que exista o cancelamento, mas acredito que é um risco que eu tenho que correr por ser artista e continuo produzindo do jeito que acho que tenho que produzir, sempre me armando das melhores maneiras possíveis, seja de pessoas inteligentes e com visões distintas que leem meu trabalho antes de ser publicado, pesquisando sobre os assuntos difíceis sobre os quais eu vou tratar. Veja bem, eu me armo para não fazer besteira e não para ser cancelado com razão, porque não há razão para ser cancelado. Faz parte do trabalho do escritor correr riscos, especialmente quando se escreve literatura de crimes, cutucando nas feridas. Eu não acredito numa literatura para fazer carinho na cabeça do leitor.

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Raphael escreveu Bom Dia, Verônica, com três temporadas na Netflix (Foto: Wesley Allen/Divulgação)

TR – Por fim, o que vem por aí, pode adiantar as novidades?
Raphael – Felizmente, hoje trabalho em várias frentes. Além dos livros, escrevo para a TV e para o cinema. Estou com um longa-metragem que escrevi para a Netflix, baseado no caso Elize Matsunaga, que está sendo filmado e deve estrear no ano que vem. Tenho outros projetos em streaming, de série e filme, em andamento. E, sim, estou escrevendo um novo livro. Sempre estou. Só não sei quando acabo.

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