Através da dança, Dora Andrade ajuda meninas e mulheres a escreverem novas histórias de força e superação

Fundadora da Edisca, Dora Andrade já ajudou a transformar a vida de crianças e jovens em Fortaleza. Em entrevista ao Tapis Rouge, a bailarina reflete sobre cultura, cidadania e os desafios da liderança feminina no terceiro setor

Sâmya Mesquita
samyamesquita@ootimista.com.br

Em meio às reflexões que marcam o Dia Internacional da Mulher, a trajetória da coreógrafa e educadora Dora Andrade ajuda a ilustrar o impacto que lideranças femininas podem ter em áreas-chave da sociedade, especialmente na cultura, nas artes e no terceiro setor. Fundadora da Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente (Edisca), a professora de dança transformou um projeto que começou com 50 crianças em uma das mais reconhecidas iniciativas socioculturais do Ceará, dedicada a formar jovens, especialmente mulheres, por meio da arte e da cidadania.

História inspiradora
Nove meses depois do início das atividades, Dora já estreava o primeiro espetáculo da instituição, O Maior Espetáculo da Terra, no palco do Theatro José de Alencar (TJA), com mais de 100 crianças envolvidas. Desde então, a Edisca cresceu e consolidou um modelo que combina formação artística e desenvolvimento social. Em mais de três décadas de atuação, a escola atendeu quase três mil crianças e adolescentes, criou 19 espetáculos coreografados por Dora e realizou 39 projetos socioculturais. Reconhecida nacionalmente, a educadora inclusive já foi homenageada na série Mulheres Fantásticas, do programa Fantástico, da TV Globo, e também pelo Prêmio RioMar Mulher, promovido pelo Grupo JCPM e pelo RioMar Fortaleza.

Ao refletir sobre o protagonismo feminino, tema central das discussões que cercam o Dia da Mulher, Dora destaca ao Tapis Rouge que o terceiro setor é um espaço historicamente marcado pela presença de lideranças femininas. Para ela, essa realidade está ligada à sensibilidade social que frequentemente move projetos voltados para o cuidado coletivo. “No terceiro setor, eu acho que eminentemente as lideranças são femininas. Talvez por conta dessa coisa do cuidado, do olhar mais sensível para o sofrimento do outro”, diz. Ainda assim, ela ressalta que os avanços conquistados ao longo das últimas décadas não anulam as desigualdades que continuam presentes na sociedade brasileira.

Entre as questões que mais a preocupam no debate sobre os direitos das mulheres está a violência de gênero, que também ganha mais evidência na data. Dentro da Edisca, essa realidade também aparece nas histórias de muitas meninas atendidas pela instituição. Ao longo de 35 anos de atuação, a escola já acolheu jovens vindas de contextos marcados por diferentes formas de violência. Segundo Dora, a dança pode se tornar uma ferramenta poderosa de reconstrução da autoestima e da autonomia feminina. “A autoestima é fundamental. Quando você se percebe como alguém que tem valor e potencial, a postura diante da vida muda completamente”, reflete a coreógrafa. O trabalho corporal também contribui para esse processo: “Você passa a ver o seu corpo não como um objeto, mas como um espaço de expressão, capaz de transmitir emoções de forma bela e harmônica”.

Rede de apoio
Além da formação artística, a instituição mantém grupos socioeducativos conduzidos por psicólogos e assistentes sociais, nos quais são discutidos temas como gênero, direitos, afetividade e cidadania. Para a educadora, essa dimensão pedagógica é essencial para que meninas e adolescentes reconheçam situações de violência e saibam como reagir a elas. “Muitas vezes a pessoa passa por uma situação de abuso e nem percebe que aquilo violou os direitos dela. Só percebe depois, quando amadurece”, explica a gestora.

Hoje, ao completar 35 anos, a instituição segue enfrentando desafios para manter suas atividades. O financiamento depende principalmente de parcerias institucionais, leis de incentivo, editais e doações individuais. Para ela, fortalecer essa rede de apoio também é uma forma de compromisso coletivo com o futuro de milhares de jovens: “Uma criança na Edisca custa cerca de R$ 700 por mês. Estamos buscando pessoas que possam apadrinhar uma criança, mas qualquer valor de doação já faz diferença”.

No contexto do Dia Internacional da Mulher, Dora também deixa uma mensagem especial para as meninas atendidas pela escola. Mais do que ensinar dança, ela acredita que a convivência com essas jovens também transformou profundamente sua própria trajetória: “Tem sido uma honra imensa entrar em contato com essas meninas. Vocês não têm ideia do quanto eu cresci como pessoa, como cidadã e como mulher a partir dessas relações”. A história da Edisca mostra que quando mulheres ocupam espaços de liderança e mobilizam a arte, a educação e a solidariedade, o impacto pode atravessar gerações.

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Conheça de perto o trabalho da Edisca através do @edisca no Instagram.

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