O homem por trás do poeta brasileiro – autor do clássico “Morte e Vida Severina” – foi registrado em obra literária, com imagens que contam sua trajetória. O livro chega ao mercado pela editora Verso Brasil
Emanuel Furtado
emanuelfurtado@ootimista.com.br
Considerado um dos maiores escritores de língua portuguesa, o diplomata recifense João Cabral de Melo Neto acaba de ganhar uma biografia humanizada, contada em mais de 500 imagens e manuscritos inéditos, que o aborda para além do poeta velho, sofrido, racional e obsessivo. Organizado por Eucanaã Ferraz – também poeta – e pela editora Valéria Lamego, a obra “Fotobiografia João Cabral de Melo Neto” também destaca a importante participação de sua mulher, Stella Maria Barbosa de Oliveira.
Grande parceira de memórias, ela o acompanhou por quatro décadas, em inúmeros países em que o escritor foi diplomata, registrando seus passos em algumas imagens que ficam para a história da literatura brasileira. O casamento durou de 1946 até a morte de Stella, em 1986, quatro anos antes de João se aposentar da diplomacia. “Minha mãe era arquivista, adorava organizar papelada”, conta Inez Cabral, segunda dos cinco filhos da união.
Segundo Inez, Stella adorava tecnologias e máquinas. “Do meu ponto de vista, ela tinha talento para a coisa, mas nunca levou muito a sério”, conta. “Montava álbuns, separava as cartas e matérias sobre ele, guardava os rascunhos (pois é, meu pai sempre fazia rascunho das cartas) junto com as respostas, acho que era seu passatempo preferido”, diz a filha.
Ainda de acordo com Inez, a mãe não compartilhava do “senso estético” do marido. Gostava de ler romances policiais e filósofos católicos, de música francesa e MPB e não apreciava as touradas, mas não reclamava. Ia a shows de flamenco se fosse com casais amigos. “Se não, ele ia sozinho. Tenho para mim que ele preferia”, lembra ela. “Ela datilografava os poemas dele, depois ele corrigia, ela datilografava de novo ad infinitum. Ela também guardava e arquivava toda a papelada dele. Comprava as suas roupas, ele detestava fazer compras. Só frequentava farmácias e livrarias”.
A editora Valéria Lamego destaca que “Stella foi de alguma forma também o nosso guia”. Segundo ela, sem as notas de Stella, não seria possível saber que a mão que em maio de 1979 aperta a do poeta – representante do Brasil no Senegal, cargo extensivo a mais três países africanos – era a de Frederick Akuffo, chefe de Estado de Gana, executado um mês depois. Com o livro, sai de cena “o poeta mais velho, mais sofrido”, quase cego dos anos 1990 que a atual geração conheceu na mídia, diz Lamego. “Agora a gente apresenta o homem”.
O livro também aborda a relação de João Cabral de melo Neto com artistas, como Vicente do Rego Monteiro (pintor, desenhista, escultor, professor e poeta), ainda na sua juventude na capital pernambucana, além do seu período como morador de Barcelona (Espanha), onde teve contato direto com o pintor Joan Miró (também escultor, gravurista e ceramista) e com o grande expoente da vanguarda artística catalã, Joan Brossa – poeta, dramaturgo, artista plástico e designer gráfico. (Com informações da Folhapress)
Serviço:
“Fotobiografia João Cabral de Melo Neto”, 224 páginas
Autor: Eucanaã Ferraz
Organização: Valéria Lamego
Quanto: R$ 128,00
Editora: Verso Brasil


















