À frente do Sistema Fecomércio há pouco mais de um ano, o empresário e farmacêutico Maurício Filizola assumiu a direção da entidade, da qual já era vice-presidente, após a saída do então presidente Luís Gastão Bittencourt para a direção nacional da entidade, e encara agora uma série de desafios.

Além das atividades em alusão aos 70 anos da entidade, que representa empresários dos setores do comércio de bens, serviços e turismo, sua gestão é responsável por integrar as gestões das suas entidades – Sesc, Senac e IPDC – visando ampliar e otimizar as suas atividades, bem como instalar uma unidade de inovação em parceria com a Google (que está sendo finalizada no prédio que funcionou a sede do grupo Esplanada, na avenida Desembargador Moreira) e uma faculdade Senac.

Proprietário da rede de farmácias Santa Branca, com 32 anos de mercado e 13 lojas em Fortaleza e no interior, Filizola também critica as grandes redes de farmácia na capital e fala em prática de dumping – quando redes se instalam em um mercado oferecendo produtos a preços abaixo do mercado para prejudicar a concorrência.

A marca principal da sua gestão neste primeiro ano foi a integração entre Sesc e Senac. Na prática, quais são os resultados dessa integração?

Essa integração foi desenhada há dois anos, com o auxílio de uma consultoria, e agora estamos integrando as práticas. Visa aproximar o corpo técnico das instituições, o que gera um resultado melhor lá na ponta. É um modelo experimental, que está sendo construído. Estamos mostrando essa sistemática para outras federações e tem sido um exemplo. Estamos otimizando as práticas e isso vai resultar em mais ações para o público final.

Essa integração vai resultar em ações conjuntas e unidades mistas?

Nós já estamos fazendo várias ações conjuntas que antes Senac e Sesc faziam separadamente. Nosso SAC, por exemplo, já é unificado. E a tendência é que as novas unidades tenham capacidade de oferecer serviços das duas casas. Já temos uma unidade em construção em São Benedito, que seguirá esse modelo e vai atender toda a Ibiapaba. Inclusive, estamos conversando com prefeituras e entidades dos municípios da região para entender quais as necessidades para formatar os serviços de acordo com os anseios da população, com a demanda local.

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Maurício Filizola

A nova unidade do Senac em Fortaleza, na avenida Desembargador Moreira, também terá ações do Sesc?

Nada impede que tenhamos ações conjuntas, mas ela será voltada para a inovação. O desenho dela é para aproveitar o polo de empresas que existe na região e se voltar para oferecer inovações para os empresários. A previsão é inaugurar no meio do ano, já com uma parceria com a Google. Essa parceria na área de tecnologia está sendo formatada e estamos em contato também com outras empresas do setor, para trazer novidades que muitas vezes demoram a chegar ao comércio. Estamos investindo mais de R$ 30 milhões e será a unidade mais moderna do País, uma verdadeira vitrine para o Senac.

O Sistema Fecomércio é reconhecido pela relevância das ações na sociedade, mantidas com a contribuição do empresariado local. Você considera que há uma boa interlocução com o poder público?

Sim. Nós desempenhamos um papel que é muito importante para as pessoas e, por isso, estamos sempre em contato com prefeituras, Governo do Estado e outras instituições, formando parcerias, ouvindo as necessidades das prefeituras, solicitando apoio e formalizando parcerias. As capacitações do Senac, por exemplo, dão suporte ao desenvolvimento e podem influenciar diretamente na arrecadação dos municípios.

O senhor teme uma não compreensão dessa relevância pelo Governo Federal, já que o ministro da Economia, Paulo Guedes, já havia dito que poderia haver “corte de verbas” do Sistema S?

É preciso fazer algumas ponderações sobre isso: o sistema não nasceu ontem, já tem mais de 70 anos e surgiu em um contexto de pós-guerra, quando a maioria da população não tinha acesso a esses serviços, financiados com uma contribuição das empresas sobre o lucro real e o lucro presumido. Não foi imposto pelo governo, é uma contribuição do setor sobre a folha de pagamento, e os maiores beneficiários são os trabalhadores do comércio, serviços e turismo. Além disso, pelo menos no Ceará, cerca de 70% desses segmentos é optante do Simples, então não contribuem para o sistema, só as grandes empresas. Ou seja: é uma divisão social, os maiores contribuem para os menores. Estamos prestando um grande serviço à sociedade e não vejo nenhum empresário reclamando do serviço. Ao contrário, não dá nem para comparar a maneira como o dinheiro é gerido pelo sistema S e pelo governo. Talvez haja desconhecimento, talvez tenhamos falhado em mostrar para a sociedade que é uma instituição empresarial, não do governo. E como passamos pelo sistema de arrecadação do governo (que fica com 3% sobre o valor arrecadado para repassar o recurso para o sistema S), temos todo um arcabouço de controle externo e interno para comprovar tudo. Talvez o ministro não tenha se aprofundado nessas características e no serviço que prestamos à sociedade.

Alguns estados já contam com faculdades do Senac. Existe alguma previsão para o Ceará?

Nós estamos em processo de aprovação. Tem todo um passo a passo interno nosso, do conselho, de apoio do Senac nacional também, e do Ministério da Educação, mas posso dizer que estamos bem adiantados neste processo. Temos uma expertise muito grande em educação profissional e estamos desenhando os cursos, as necessidades, trabalhando para que isso aconteça e também para que seja um diferencial de mercado, não só mais uma faculdade. Talvez em 2020 já teremos a primeira turma.

Além do centro de inovação do Senac na Desembargador Moreira e da formatação da faculdade, qual será o outro grande projeto da Fecomércio para o Ceará este ano?

Estamos concluindo o projeto Museus Orgânicos, bem ligado à nossa cultura popular e que deve impulsionar muito a cultura, o turismo e toda a cadeia da economia criativa no Cariri. Será uma rede de 16 museus vivos, instalados nas casas dos mestres da cultura. Já foram inaugurados dois museus (Reisado de Couro dos Caretas e Oficina do Mestre Françuili), e até 2020 vamos inaugurar os outros 14. Os Museus Orgânicos formam uma rede de preservação da memória e também um circuito turístico, e também contribuem para a sustentabilidade das famílias que vivem da cultura tradicional.

O senhor é empresário do setor de farmácias e foi presidente do sindicato patronal do setor (Sincofarma) por 12 anos. Como avalia a expansão contínua das três gigantes do setor em Fortaleza?

É algo que transcende o setor. O setor farmacêutico é muito regulamentado, inclusive em preço. Cerca de 98% dos medicamentos são tabelados. Conferimos junto com distribuidoras da região e constatamos que essas redes comercializam produtos abaixo da tabela, ou seja, têm uma operação negativa, que é coberta pelos lucros em outros estados, com o intuito de desestabilizar o mercado local e prejudicar as pequenas e médias redes. Nós vemos em Fortaleza várias farmácias imensas com ninguém comprando, apesar dos descontos grandes. As grandes redes chegam aqui com um preço que as pequenas e médias não podem acompanhar, porque compram de distribuidores locais, e as grandes em outros estados. O que resta para manter a clientela é somente o relacionamento construído.

Essas redes estão praticando concorrência desleal no mercado cearense?

Sim, estão canibalizando o mercado para no futuro se aproveitar da eliminação das farmácias menores. Isso é muito pior do que se imagina, porque pode deixar a população à mercê delas. Tem empresas com 50 anos de mercado que estão quebrando porque foram atacadas de uma maneira desleal. No último ano, duas redes faliram e outras três pediram recuperação judicial. Não vendem mais barato porque têm operação mais barata, ao contrário. Vendem mais barato porque querem minar o mercado e têm lucros em outros estados pra cobrir. Duvido que estas redes tenham interesse na maioria das cidades do interior, por exemplo. O cearense está sendo desrespeitado, a população ganha hoje com os descontos e perde amanhã com a concentração de mercado.

Qual seria a solução?

Acho que o governo do Estado precisa pensar no reequilíbrio da entrada de mercadorias no Ceará e cobrar mais alto, porque o pequeno e o médio compram dos distribuidores locais e as grandes trazem mercadoria de fora do estado, com menos ICMS. Isso quebra os farmacêuticos e os distribuidores também. Atualmente são só duas distribuidoras, porque uma já foi embora. Nós estamos conversando com a Sefaz e apresentando os problemas para que a secretaria chegue a uma solução.