Um dos temas mais sensíveis para as grandes cidades é a mobilidade urbana e, principalmente, o sistema de transporte coletivo. Encarando uma das maiores crises do setor – houve um decréscimo de 21% no número de passageiros pagantes nos últimos três anos – o empresário Dimas Barreira, a frente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus), propõe “uma rediscussão do modelo atual de transporte e a adoção de financiamento público para melhoria do transporte coletivo”.

Barreira está há sete anos no comando da entidade, que reúne 18 empresas (11 urbanas e sete metropolitanas),  2,3 mil ônibus e e gera 11 mil empregos diretos na cadeia. Para ele, “Fortaleza está longe do ideal, mas tem hoje o melhor transporte público do País, com índice de cumprimento de viagem superior a 90%, chegando, em alguns meses, a 99,8%”.

Sob o seu comando, a entidade conseguiu, em parceria com o poder público, importantes avanços nos serviços, tais como o  compromisso da renovação paulatina dos ônibus por veículos com ar condicionado – atualmente, 35% da frota é climatizada – a redução dos comboios (ônibus da mesma linha rodando um atrás do outro), a disponibilização de internet em todos os ônibus e o investimento contínuo em tecnologia e inovação.

Apesar de movimentar atualmente mais de 1,5 milhão de pessoas todos os dias, o setor ligado ao transporte público de Fortaleza e região metropolitana aponta crise no setor e ampliação frequente dos custos, não repassados para a passagem. Qual a origem deste problema?

O transporte coletivo está passando por um choque no mundo inteiro, e a crise do setor é em todo o país, não só em Fortaleza. Estamos enfrentado problemas de financiamento e de mobilidade. Em São Francisco (Califórnia), por exemplo, que é uma das regiões mais prósperas do mundo na atualidade, as empresas do Vale do Silício estão em um movimento de sair dos subúrbios e voltar para os centros porque as pessoas não querem mais perder duas horas pra ir ou voltar para o trabalho. E lá nos Estados Unidos o transporte público é altamente subsidiado. Já aqui no Brasil, criou-se uma cultura de que o passageiro deve arcar com a totalidade do custo da passagem. Essa tensão foi aumentando a ponto de encarecer demais a passagem para o cidadão, e as empresas de ônibus não são como as outras, trabalham com um serviço público. Somado ao custo integral da passagem – o que não ocorre em lugar nenhum do mundo, em Paris, por exemplo, o passageiro arca com aproximadamente 30% do valor – aqui as pessoas têm que arcar ainda com os impostos. É claro que o ideal é que a maioria ande de ônibus, porque ocupa 17 vezes menos espaço que a mesma quantidade de pessoas em carros, mas é preciso equacionar os preços com a realidade local e a política de locomoção.

Você concorda que mobilidade urbana não tem a relevância necessária nos gastos públicos?

A coisa mais cara que tem pra uma cidade é carro: tem a estrutura viária, sinalização, manutenção, poluição, então a solução é o transporte público, mas sempre tem outras prioridades e não pode esbarrar na tarifa. No entanto, os benefícios de um bom transporte coletivo são incalculáveis para a cidade: é mais saúde, menos poluição, menos acidentes de trânsito e mais qualidade de vida.

Quais são os prioridades do setor para superar a crise e oferecer um serviço melhor?

Os três pontos fundamentais, a meu ver, são apontar uma fonte de financiamento para reduzir o preço da passagem, prioridade de tráfego e tecnologia. A gente precisa criar um sistema de financiamento público ou um fundo nacional de sustentação do transporte coletivo para incentivar as melhorias e retirar do passageiro o peso dos benefícios sociais, como gratuidades e meia passagem, o que ajudaria a reduzir custos e melhorar a competitividade; ampliar faixas de prioritárias e exclusivas para os ônibus, isso desagrada muita gente, mas é muito mais democrático, pelo menos dois terços das pessoas que estão na rua estão nos ônibus, e acompanhar as mudanças de perfis das vias. Por exemplo, hoje não é admissível que uma Bezerra de Menezes ainda tenha estacionamento na calçada. E, por fim, pensar fora da caixa e investir em tecnologia para aprimorar o serviço, oferecer mais conectividade ao passageiro. Eu quero ressaltar que isso tudo não vai ampliar margem de lucro das empresas, vai reequilibrar o sistema, que hoje está em desequilíbrio, e investir em melhorias.

A consolidação de aplicativos de transporte individual, como 99 e Uber, afetaram o faturamento das empresas de ônibus?

Muita gente deixou de pegar ônibus não só pelos aplicativos, mas também por uma mudança de cultura. Até pouco tempo pra pegar um extrato você ia até a agência, pra fazer uma compra você ia até a loja, hoje é tudo pela internet. O sistema de transporte público teve esta queda nos últimos anos, de 21% do número de pagantes, mas ficaram as gratuidades, a meia passagem, sufocando ainda mais o valor da passagem, enquanto os aplicativos ficam com o público que é o ‘superávit’.

Porém o serviço dos aplicativos é bem mais atraente para os usuários.

A Uber é muito conveniente pra quem usa porque pega na porta, tem a questão de segurança, que é grave, mas segue a lógica de mercado, então prioriza o serviço, não o cidadão. Ônibus é um serviço público, que tem hora pra cumprir e não espera encher pra sair. Então é importante que a cidade garanta a subsistência do sistema de transporte público.

O Sindiônibus criou, na sua gestão, um Grupo de Inovação para projetar, testar e inserir melhorias nos serviços. Quais são as principais melhorias adotadas as que estão em projeto?

Estamos tentando criar modelos para tornar o serviço de ônibus mais atraente, principalmente pela interface com o celular. A classe C e D, que realmente depende dos ônibus, ainda não está com acesso total a smartfones e pacotes de dados, mas estamos nos preparando para receber essa leva. Já temos o aplicativo Meu ônibus, onde mapeamos todos os mais de seis pontos da cidade para disponibilizar dados em tempo da real da chegada, possibilitado pela frota mapeada por GPS; estamos na quarta plataforma de bilhetagem eletrônica, desde 1992. As outras capitais estão na segunda, ainda. Temos os créditos online, comprados por cartão de crédito, e vamos lançar a nova versão do Meu ônibus, que vai permitir consulta sobre itinerários. Hoje você precisa ligar para a ouvidoria do Sindiônibus para se informar sobre qual linha pegar para chegar em um dado destino, daqui a alguns meses será possível consultar isso no celular. Por último, vamos adotar em breve o pagamento via NFC, mecanismo de alguns celulares que permite o pagamento por aproximação do aparelho, eliminando até a necessidade do cartão do Bilhete Único.

Uma das queixas dos usuários é a regularidade do sinal de internet nos ônibus, e a frota está integralmente conectada, segundo a Prefeitura.

Temos internet wi-fi em 100% dos ônibus. Um dos desafios é restringir a banda por usuário para estabilizar o acesso. Quando tem muita gente conectada ao mesmo tempo, eventualmente a velocidade cai e infelizmente não temos como oferecer um serviço suficiente para que todo mundo baixe vídeo, por exemplo. O nosso objetivo é oferecer o suficiente para que todo mundo tenha acesso a textos. Eu diria que diariamente, cerca de 15% dá problema, os outros 85% da frota opera com internet normalmente. Estamos trabalhando para gerir isso, chegar a uma equação para restringir o acesso a quem está usando muito dado há muito tempo.

Foto: Eri Nunes