Confira os melhores momentos no vídeo e a íntegra da entrevista abaixo:

Advogado por formação, comerciante por vocação e atualmente empresário do setor financeiro, Cláudio Vale, fundador da CVPar Finanças, tem uma trajetória de sucesso. Com uma rede de serviços financeiros baseada em desconto e adiantamento de recebíveis, a CVPar administra atualmente uma carteira de R$ 350 milhões distribuídos em oito Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios (FDIC).

A empresa, voltada para o desconto de recebíveis, nasceu de uma factoring – o primeiro negócio do ramo financeiro criado por Cláudio, em 2002, que antes disso atuava no comércio, com cinco lojas de cosméticos. Com 11 anos no mercado, a gestora de investimentos projeta um novo fundo imobiliário e também uma seguradora voltada para o segmento industrial, que deve entrar em operação ainda em 2019.

Como você define o perfil da CVPar?
Somos uma empresa voltada para o desconto e adiantamento de recebíveis. Temos os Fdic, do qual a gente faz todas as antecipações. O negócio nasceu de uma factoring, os recebíveis têm a vantagem da tributação, porque a factoring é bastante punitiva, mesmo se não receber o crédito, já recolhe imposto. E os Fdics têm mais o nosso perfil, é uma coisa mais de longo prazo, melhor estruturada. Temos oito Fdics atualmente. Então, ou você tem um investidor diferente, ou um outro tipo de recebível. Dá pra nadar de braçada em vários recebíveis, imobiliário, venda comercial…

Hoje a CVPar administra uma carteira de que tamanho?

Hoje administramos uma carteira de R$ 350 milhões, desses aqui no Nordeste deve ter uns R$ 200 milhões em ativos, mas a grande maioria dos investidores é do Sul e Sudeste.

Se você pudesse dar uma dica para quem quer começar a investir, qual seria?

O basilar do investidor é respeitar a poupança que se fez. Todo investidor é antes de tudo um poupador. As pessoas têm que buscar, em primeiro lugar, pra respeitar esse poupança, seriedade em quem está administrando o investimento, ter a segurança de que aquele valor vai voltar remunerado. A gente é bem regulado pela CVM. Se eu for dar uma dica é buscar ações, você vê que estamos em um país represado, que sofreu muito com a crise, os empresários sofreram muito para manter seus investimentos, ainda tem muita empresa com valor depreciado na bolsa. Se o investidor tiver uma agressividade maior e acreditar nas empresas brasileiras, tem que ir pra bolsa. Aliás, está até passando do tempo. O ideal seria investir quando a bolsa estava em 80 mil ou 90 mil pontos, agora já está batendo os 100 mil. Acredito que, se aprovada a Reforma da Previdência, a gente vai ter uma animação equivalente a ganhar uma Copa do Mundo, porque a taxa de juros tende a baixar, o país sai desse risco iminente e as empresas vão se valorizar, dando retorno para quem investiu nas empresas que hoje estão um pouco depreciadas.

O Brasil é um país que não tem a cultura da poupança. Você acha que tem muito o que desmitificar sobre investimentos financeiros?

Eu noto que ainda tem muita falta de conhecimento, principalmente no Nordeste. Aqui as pessoas ainda têm a cultura do latifúndio, que é um bom investimento, mas nada como a liquidez. Pra você ver: nós somos uma empresa cearense, mas temos nada captado aqui, tudo foi captado no Sul. A credibilidade foi alcançada em outro estado, que não é o meu. Mas tem várias outras opções que trabalham com investimentos pequenos, de um ou dois mil reais. Tem ainda as fintecs, que com essa avalanche que empurra a gente pra tecnologia, tem muito a crescer.

O Nordeste tem potencial para crescer na carteira da CVPar?

Tem muito a crescer ainda. É uma praça extremamente líquida, temos grandes empresas consolidadas com muito potencial de formar novos fundos específicos para esses grupos, mas o que falta mesmo é educação financeira.

A classe média não é o perfil da sua empresa.

Quando a gente passou para os investimentos, buscamos o atacado, porque precisa de muito braço pra ir pro varejo. Pra atender o varejo precisa de um sistema muito robusto, de muita gente por trás, de um back office imenso, de um call center dando suporte e tirando dúvida o tempo inteiro. Então, a gente se direcionou para o atacado, é muita coisa. Nós fomos mais para o family office, porque a gente conversa de gestor pra gestor.

Você pensa em expandir para o varejo?

Eu acho que as ferramentas tecnológicas nos empurram pra isso. É natural que, na medida em que vai desmistificando, sempre é melhor estar no varejo do que no atacado. A nossa estratégia é ter aqui com a gente investidores que ainda tenham muito o que colocar conosco. Estamos com crescimento orgânico, passo a passo. Ir paro o varejo vai ser uma consequência, mas não é o que temos buscado agora.

Você começou a vida empresarial no comércio. Como passou ao segmento das finanças?

Eu tinha um negócio de cosméticos, com cinco lojas em Fortaleza. Determinada pessoa chegou pra descontar os recebíveis que eu tinha naquele momento e eu fui entender que negócio era aquele, e vi que na factoring você tem um percentual anual que dá pra perseguir. Aí deu o estalo e eu decidi sair da economia real e ir pro financeiro. Você fica plural, conhece várias atividades, não se relaciona só com uma. Foi isso que me colocou no factoring, depois no fundo, depois gestora, e hoje é uma coisa que eu faço com muito prazer.

Você teve alguma experiência no setor financeiro antes de apostar nele, ou foi puramente tino?

Eu sempre tive um bom tino comercial, mas não tive nenhuma experiência no segmento financeiro antes. Entrei com a curiosidade e o tino. Até que a liquidez do financeiro me chamou atenção. E é isso que eu persigo sempre, manter a liquidez, esse é o meu foco. Eu quero ir e voltar remunerado, ir e voltar com os meus clientes. Sempre tem o momento que você entra e sai do investimento. Isso é uma cultura que não é nossa, investir e desinvestir.

Como foi a mudança da factoring para o fundo?

Foi por causa disso, uma tributação de 34% antes mesmo de eu receber. Se o cara chega com um cheque de 100 reais, eu vou pagar uns 98 pra ele. Se tudo der certo, vou ganhar esses dois reais, mas vou ter que pagar esses 34% da receita, fora o custo administrativo. No fundo de investimento não tem isso, o dinheiro é aplicado, o fundo que está fazendo o desconto e não tem a necessidade de recolher o tributo na frente. Tanto é que a indústria da factoring caiu, quase não existe mais.

Como se deu a mudança da empresa para São Paulo?

A mudança pra São Paulo se deu porque, se você quer crescer a sua carteira, tem que estar perto do investidor. E o investidor mais qualificado e profissional está no Sudeste. No Nordeste você conta nos dedos, tem uns 20 ou 30 grupos com liquidez pra isso. E a cultura de investimento também é diferente, geralmente os investidores daqui vão para bancos de investimentos, utilizam outras ferramentas. Então, santo de casa não obra milagre. E lá estamos mais próximos do mercado, trabalhando melhor a persuasão sobre porque investir.

Você migrou do comércio para o crédito, depois fundos etc., sempre com sucesso. Nessa trajetória, você teve muitas dificuldades?

Várias. Todo dia, até hoje! Trabalhar com crédito no Brasil não é fácil. Se você não tem venda, não tem duplicata, já começa daí. Os fundos ficaram extremamente líquidos, o canibalismo do setor, o spread cada vez menor. Tudo isso faz a gente avaliar se vale a pena correr esse risco e, geralmente, é melhor deixar o dinheiro em casa, diversificar, ir pra fundo imobiliários etc., porque trabalhar com crédito no Brasil é muito difícil. A equipe tem que ser muito bem informada, saber qual é o segmento que pode defautar. Então, tem que ficar sempre se antecipando à informação. E quando vem um dissabor não vem só um, são vários e com valores expressivos. É isso que testa a capacidade de permanecer no mercado ou não.

O que você indica no cenário atual como investimentos mais seguros?  

Poupança, CDB de banco grande, as letras, LCA, LCI, enfim, o trivial da renda fixa. Agora a gente está vendo que, cada vez mais, o investidor está procurando a renda variável, como por exemplo, a Bolsa. Ainda existe muita desinformação, as pessoas acham que bolsa é uma roleta-russa, mas se você avaliar bem a situação e o histórico da empresa, se tiver um economista-chefe capaz de montar os cenários, se você está bem de orientação, o risco da bolsa cai bastante. Claro que ninguém prevê certas situações. Taí a Vale… quem é que ia imaginar esse terror em Brumadinho? No outro dia, quem investiu estava 25% mais pobre. Não estou empurrando ninguém pra bolsa, mas quem procura mais rentabilidade tem que ver se está disposto. Se eu fosse investir o dinheiro da minha vida, não levaria todo pra bolsa. Nesse caso tem que fazer poupança. Ou até levaria, mas um pedaço só, dividiria em outros investimentos.

A CVPar Finanças tem produtos para investidores individuais? 

Hoje nós não temos um produto específico para pessoa física. Claro que, quem tiver interesse em investir, a gente sempre vai conversar, mas hoje não fazemos essa captação pulverizada. Temos oito fundos de investimento multimercado, imobiliário, FIA, que são as ações, e os Fdics, que é o nosso carro-chefe e o nosso DNA. O que aconteceu é que adicionamos mais serviços. Hoje não fazemos só descontos, fazemos gestão de carteira de investimentos.

Quais são os planos de expansão da CV Par?

Fortalecer e criar novos produtos. Estamos criando um fundo imobiliário que já nasce gigante, oriundo da compra de galpões comerciais e outras compras estratégicas de imóveis que fizemos. Já comercializamos alguns e não distribuímos, deixamos dentro de casa mesmo. Agora, em uma segunda rodada de vendas, a gente pretende abrir esse fundo para o mercado. Pode ser que a gente vá para o varejo a partir daí, mas precisamos de muito braço pra isso, acredito que só a partir de 2020.

Este ano a empresa também vai passar a atuar no mercado de seguros?

Uma novidade ainda para 2019 é a Ezze Seguros. Protocolamos na Susep (Superintendência de Seguos Privados) e estamos esperando que a homologação saia ainda este semestre e, vencida essa burocracia, começamos a operar ainda em 2019. Eu, Ivo Machado (ex Brasil Insurance) e o Degas Filgueiras (DeVry Fanor) elaboramos esse projeto, que tem no nome uma homenagem a uma das cidades mais seguras do mundo, Ezze, na Dinamarca. Será especializada em securitização para a indústria, o que acaba sendo um serviço a mais da CV Par, e vai ter como CEO o ex-presidente da Zurich Seguros no Brasil, o Richard Vinhosa. Além dele, temos mais outros 11 sócios investidores, a maior parte daqui do Ceará.