Paulista por acaso e cearense de coração, Ciro Ferreira Gomes, 60, prepara-se para concorrer, pela terceira vez, à presidência da República, pelo PDT. A disputa ocorrerá 35 anos depois de Ciro conquistar o seu primeiro mandato, como Deputado Estadual, em 1983 – o presidenciável tinha ingressado na política três anos antes, quando integrava o diretório acadêmico do curso de Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Dono de uma trajetória política invejável – e como ele mesmo gosta de frisar, “38 anos sem envolvimento em nenhum mal-feito ou inquérito, nem que seja pra ser absolvido” – Ciro propõe uma agenda reformista, nacionalista e de valorização das instituições públicas para acabar com o que ele considera ser um ciclo vicioso que atira o Brasil em crises periodicamente.

O presidenciável recebeu a Tapis Rouge em maio, na sua casa, e apresentou uma extensa lista de proposições focadas, principalmente, em um novo modelo de previdência; na elevação da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB); nas reformas fiscal e tributária; na revisão da lei de licitações; na taxação sobre lucros empresariais e heranças; maior competição no sistema financeiro e redistribuição de renda por meio da desoneração das classes C, D e E. Confira a íntegra da entrevista publicada na edição 12 da Tapis Rouge.

Tapis Rouge – O senhor tem proposto um modelo de gestão compartilhada da Previdência e a mudança do regime de repartição para capitalização, com um fórum de debates prévio.

Ciro Gomes – Sim, a ideia é fazer dessa questão uma proposta de debate que não pode ser considerada a final sob pena de nascer morta, porque é um assunto muito complexo. O meu compromisso é formular uma proposta, mas não fazer dela um cavalo de batalha, mas sim um eixo de debates que vai durar seis meses, envolvendo a participação de todos os trabalhadores, entidades, empresários, academia ou qualquer um que queira participar, além da legislação internacional comparada, que vai ser sempre uma prática minha, para que a gente traga referências sobre como se resolveu essas questões grandes e graves no estrangeiro. O atual sistema, de repartição, só funciona quando é em uma sociedade muito jovem. Quando o sistema começou nós tínhamos seis pessoas com carteira assinada pra sustentar um aposentado que vivia até cerca de 60 anos. Então quando é muita gente contribuindo pra pagar um aposento por pouco tempo, funciona. Hoje o Brasil tem menos de dois trabalhadores ocupados para financiar um aposento que vai a 73 anos de idade média. Portanto, esse sistema morreu e essa reforma do Temer nem de longe consultava isso, sendo absolutamente selvagem e injusta. Só pra dar um número: o buraco da Previdência com a DRU (Desvinculação de Receitas da União) foi de R$ 180 bilhões ano passado. A reforma selvagem que nós conseguimos derrotar ia economizar R$ 360 milhões em 10 anos. Tapava o buraco do dente por dois anos e depois deixava um problema gravíssimo pra frente.

TR – Como e em quanto tempo esse modelo será implementado e qual a participação dos sindicatos, em uma eventual vitória?

Ciro Gomes – A proposta é migrar para um regime moderno, o de capitalização. É uma espécie de poupança que o Governo faz junto aos trabalhadores e empresários, vinculada a uma conta individual, e essa poupança se associa ao investimento produtivo e extrai dele o ganho para pagar lá na frente essa aposentadoria. O problema não é o modelo, mas a transição, como sair do regime quebrado pra um regime novo, porque há um custo que os tecnocratas de Brasília acham que é impagável. A gente está pensando em fazer a transição criando três sistemas. Um é tirar do orçamento da Previdência todos os benefícios sociais, por exemplo, 10 milhões de trabalhadores rurais que não tinham contribuído passaram pra dentro da Previdência, só isso já era o suficiente pra quebrar. Ainda que seja justo, você quebra o sistema atuarial. Outro é pegar todo mundo que não contribuiu, dar uma renda mínima de um salário mínimo paga pelo Tesouro Nacional, não mais pela Previdência. Isso é que ocorre na prática, porque gera um déficit que já é tapado pelo Tesouro, sem transparência nenhuma. Aí você mascara o direito a uma renda mínima, justíssima para os mais pobres, com os privilégios de uma casta que não quer ceder nada e vai ter que ceder. Depois você tem um regime de participação como o que está aí, mas como transição, cortando pela renda média. Pode ser na faixa de R$ 3,5 mil, mas pode chegar ao teto atual, de R$ 5,5 mil. A partir daí já funda o novo regime de capitalização, para quem ganha acima de R$ 5,5 mil que, infelizmente é a minoria da população.

TR – E a maior parte da população, que está nesse meio entre um salário e o teto, entraria no novo regime em quanto tempo?

Ciro Gomes – Deve variar regionalmente e conforme cada tarefa. Os cálculos estão sendo feitos para que a gente leve ao debate várias simulações. Vamos supor que o Governo entregue a proposta de R$ 3,5 mil, com um custo de transição mais baixo e bem mais rápido. Se for mais, o custo e o tempo também serão maiores. Nós vamos oferecer os módulos todos para o debate. O mais importante é que não haverá reforma sem pelo menos seis meses de discussão. Entre a eleição e a posse, se eu tiver o privilégio de servir ao Brasil como presidente, eu começarei a fazer as convocações, porque isso tem que ser feito também com prefeitos e governadores. Está dentro de um ambiente de refundação fiscal do Brasil, de um grande esforço de saneamento global das contas públicas brasileiras.

a taxa de câmbio tem que ser estimulante da produção e não do consumismo, o sistema tributário tem que ser mais progressivo e preparar o país para uma ‘indústria 4.0’

TR – Quais são as alternativas a curto prazo para diminuir a dependência que a economia brasileira tem em relação à exportação de commodities?

Ciro Gomes – Você tem dois movimentos pra fazer. O primeiro é pactuar com a sociedade, por isso eu quero propor antes que os preços centrais da economia sejam administrados de forma a favorecer a produção em detrimento da especulação financeira. Isso é histórico e encerraria um ciclo de 30 anos que está quebrando o Brasil sistematicamente. A saber: a taxa de câmbio tem que ser estimulante da produção e não do consumismo; a taxa de juros tem que estar algum ponto abaixo da média de rentabilidade dos negócios; o sistema tributário tem que ser mais progressivo, ou seja, diminuir a tributação sobre consumo dos mais pobres e da ‘pequena’ classe média e aumentar a tributação sobre os mais ricos. O segundo bloco de tarefas é identificar os setores onde o Brasil pode reverter esse quadro de desindustrialização e dependência de commodities com mais rapidez e menos dificuldade. Aí eu elejo quatro setores, por serem os que mais pesam na balança de pagamentos do país e que são óbvios. Por exemplo: todo o setor de petróleo e gás. Hoje o Brasil é exportador de óleo barato e importador de gasolina e diesel. Temos que verticalizar o refino e preparar o país para uma ‘indústria 4.0’, de natureza petroquímica. O segundo é o complexo industrial da saúde. O Brasil gastou ano passado US$ 17 bilhões em importação de aparato industrial de saúde, de remédio a prótese, tudo importado. Boa parte disso é com patente vencida, que pode ser feita aqui com engenharia reversa, incubando novas empresas nas universidades e garantindo a compra governamental. Os outros são as indústrias do agronegócio e da defesa. Os novos caças Grippen da Força Aérea são exemplos disso, uma encomenda de US$ 5 bilhões com transferência de tecnologia, tudo montado aqui. Esses são exemplos do que precisamos para virar o jogo dessa crise crônica.

TR – O que o senhor pretende fazer para reverter essa situação e fortalecer a indústria em detrimento do mercado financeiro?

Ciro Gomes – Cinco bancos concentram 85% das operações financeiras do Brasil, isso foi a maior imprudência que nós cometemos nos últimos 20 anos. Pro mercado financeiro a gente só tem uma alternativa: agravar a concorrência. Dois desses cinco são públicos (Caixa e o Banco do Brasil), e há uma pressão enorme para privatizá-los para transformar esses cinco em três. Comigo, Caixa e Banco do Brasil vão sair do cartel e operar no mercado, agravando a competição, disputando clientes com o Itaú, o Santander e o Bradesco. Com taxas de juros consistentemente mais baixas, que vão ganhar rentabilidade na escala, no crédito e não na especulação financeira. Os juros têm de ser permanentemente tensionados para ficar abaixo da rentabilidade média dos negócios da economia real. Hoje a taxa de juros é de 6,5% contra uma inflação projetada de 2,56%, ainda exorbitante. Apesar disso, a taxa do cartão de crédito é de 486% ao ano. No cheque especial do Banco do Brasil, 282% de juros ao ano. Na ponta, o juro médio da Febraban é 51%. Qual é o negócio da economia real – pecuária, indústria, comércio – que paga 51% de lucro? Como é que pode uma economia rodar se eu não tenho dinheiro e preciso fazer empréstimo, mas o lucro é menor do que o juro que eu tenho que pagar para o banco?

TR – Como ficará a tabela do Imposto de Renda caso o senhor seja eleito?

Ciro Gomes – A tabela será corrigida pra cima, criando uma alíquota de 35%, e pra baixo, com alíquota menor que 7,5%. É fazer o sistema mais progressivo e criar um tributo sobre heranças e doações mais relevante, e um sobre lucros e dividendos empresariais, que só o Brasil e a Letônia não cobram.

TR –  A Lei 8666, que rege as licitações, será revisada? Qual seria o modelo ideal?

Ciro Gomes – Ela é ridícula! Foi criada como resposta apressada ao drama da corrupção. Na época o escândalo novelizado era o dos Anões do Orçamento, mas revelou-se uma tragédia, primeiro pela ineficiência sistêmica que impôs à administração pública, segundo pela facilitação da corrupção, porque corrupção não é um problema que se resolve com lei, mas sim com exemplo. Licitação exige permanente atualização institucional, com a lei tentando chegar sempre na frente, mas o que enfrenta corrupção é exemplo. Se o de cima rouba, ou considera o roubo inerente ao presidencialismo de coalização, como o Fernando Henrique com a sua tradicional impostura inventou, rouba todo mundo. A Lei 8666 precisa mudar, tem que ter inclusive a capacidade de fazer uma coisa mais genérica e permitir que as atualizações sejam mais aceleradas, por meio de Medida Provisória, por exemplo. A 8666 tem uma lógica boa, que é o menor preço. Por exemplo: em uma licitação para escola, tem a limpeza do tereno, tem os alicerces, tem as paredes, piso, teto, depois acabamento e o resto. O que os ‘caras’ estão fazendo é superfaturar os preços relativos das fundações e da limpeza e subfaturam dramaticamente as outras etapas. Ganha dinheiro superfaturado até a parede, aí abandona a obra. Aí por ficção legal começa a maluquice da 8666 de chamar o segundo lugar pelo mesmo preço, que já foi um preço artificialmente criado para não ser feito. A despeito da lei, tem inovações que podemos fazer. Fiz no Ceará, com apoio da Fundação Getúlio Vargas, uma tabela ampla de preços unitários, aí você desconsiderava qualquer proposta abaixo de 5% e superior a 5%, deixava a briga entre eles no intervalo de 10%, que é o lucro razoavelmente imaginado.

TR – O senhor propõe um governo mais próximo à repactuação ou à ruptura?

Ciro Gomes – Nós precisamos fazer uma ruptura pactuada. O Brasil precisa recelebrar o seu pacto fundamental de financiamento, de repartição de receitas e atribuição de tarefas. Redesenhar o Pacto Federativo em troca de um redesenho do pacto fiscal. Isso não é trivial porque vai impor uma troca muita complexa do que fazer em tempos de estagnação econômica, que é diminuir impostos sobre a população mais pobre e a classe média e aumentar impostos sobre as castas mais ricas. Quando a economia está em expansão, e eu vou buscar isso na primeira hora, essas dificuldades não deixam de ser graves, mas se atenuam. Se você faz em época de estagnação, você tem que tirar renda de alguém pra dar pra outro alguém. Não é pegar o excedente de renda novo e fazê-lo ir para os demais, embora isso ofenda o interesse de minorias. Por isso tem que ser uma repactuação.

TR – Dentro desta lógica desenvolvimentista, como aliar atração de investimentos e incentivo à indústria com a preservação ambiental, já que nas últimas eleições, até mesmo a candidata ligada ao setor, Marina Silva, relegou este tema a segundo plano?

Ciro Gomes – Eu montei uma equipe de plano de governo com um ambientalista pra estressar tudo o que for proposto. É preciso que a gente entenda que o debate ambiental não pode se processar à parte, como um capítulo autônomo. Aí fica alguém preocupado para que a energia não falte, e este é do mal, e alguém preocupado com o impacto da hidrelétrica sobre o bagrão, e esse é do bem. Isso não funciona, a vida não é assim. A vida é como não deixar faltar energia ao mais módico preço, mitigando a antropização, porque ela depreda o meio ambiente, ponto. Nosso padrão de consumo depreda o meio ambiente, ponto. A gente deve mitigar isso nas nossas ações do dia a dia, mas a existência da humanidade no planeta Terra é o mais grave problema de lesão ambiental, é a Teoria de Gaia. Como é que a gente mitiga isso? Dando conteúdo prático a conceitos que, teoricamente, estão muito amadurecidos no mundo. Ao invés de fazer do desenvolvimento sustentável um palavrório vazio, tem que fazer esse conceito aterrissar na questão de associar a necessidade econômica – de alimentar as pessoas, de fazê-las ter acesso a energia a preço módico e mobilidade – fazendo de uma forma a atenuar ou anular, na medida do possível, os efeitos deletérios sobre o planeta Terra.

TR – E como se deve fazer essa mitigação do impacto e deslocar o nosso padrão de consumo para um patamar menos danoso?

Ciro Gomes – Isso exige uma respiritualização da humanidade, que nós devemos buscar a partir de antes de ontem. As nossas crianças não devem ser ensinadas a fazer só uma pergunta no ato de consumo, que é quanto custa. É preciso ensinar a fazer três: além dessa, ‘a quem aproveita economicamente meu ato de consumo?’, isso leva ao que já é visto na França ou no Japão, por exemplo, onde os consumidores topam pagar mais caro um pouco por um produto que tem o atributo de beneficiar o meio comunitário; e a terceira pergunta é ‘meu ato de consumo, em si mesmo, é hostil ou amistoso ao planeta?’. E aí se passa a revogar aos poucos os danos. Aí todo o perfil de renda tem que mudar, toda decisão de consumo não deve ser subordinada só a questão de eficiência, de escala e de produtividade, que é o que nós temos aí. A China está avançando para replicar o padrão de consumo norte-americano, que tem dois carros para cada três pessoas. Na hora que isso acontecer, o planeta Terra morre. Concretamente, existe um país mais capaz do que qualquer outro de fazer uma agenda de desenvolvimento sustentável, e ele se chama Brasil.

 

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Poucos dias antes da entrevista, Ciro tinha visitado a fábrica da Grippen, na Suécia, e relatou sua experiência ao pousar, no simulador de voo, o caça na pista do aeroporto Santos Dumont.

TR – Qual é a alternativa viável para o Brasil incentivar a produção de carros menos poluentes?

Ciro Gomes – O Brasil precisa optar por qual caminho queremos andar, porque não é possível continuar como está. Nós saímos atrasados – e não sei se isso é necessariamente ruim, ainda estou estudando – sob o ponto de vista do carro elétrico, que é uma ilusão, sob o ponto de vista ambiental. Ele não gera poluentes quando está operando, mas lá atrás, na produção de energia, é um problema, principalmente para um país como o Brasil, que tem a matriz energética mais limpa e barata do mundo, mas exauriu. Parece que o ideal para nós, na contramão do mundo, é apostar num carro movido a biocombustível. Pelo próximo meio século nós temos petróleo sobrando. Mas é preciso buscar a tendência, e a nossa tendência não é estressar o elétrico, que é um problema da China, que não tem biocombustível, nós temos um universo extraordinário nesse sentido. A gente pode fazer um zoneamento econômico ecológico, substituindo áreas degradadas por áreas de produção de diferentes tipos de cana, por exemplo. Estamos estudando tudo isso.

TR – E a matriz energética brasileira, precisa ser diversificada?

Ciro Gomes – Pois é, lá vem a contradição. O Brasil precisa pensar com urgência relativa, uns 10 anos no máximo, a questão nuclear. Os ambientalistas dos anos 1970 e 1980 achavam que era o fim do mundo, mas agora, forçados pela realidade estão começando a compreender a necessidade. A gente tem que apressar o submarino nuclear, cuja importância civil é ser capaz de produzir mini-usinas, que podem ser espalhadas pelo semi-árido. E nas áreas onde é possível, aumentar a produção de energia eólica e solar.

TR – O senhor já declarou que busca um vice ligado ao setor produtivo, a fim de angariar mais votos nas regiões mais industrializadas. Isto pode parecer uma incongruência para um candidato que defende elevação de tributos para quem ganha mais e desestímulo para o mercado financeiro? Como o senhor pretende conquistar o voto destas camadas da população?

Ciro Gomes – Exatamente! Há no Brasil essa grande incongruência. E boa parte da culpa da nossa tragédia sócio-política, econômica e institucional – porque depois do golpe ainda tem mais esse componente, o institucional – é a dissociação brutal entre quem trabalha e quem produz. E essa dissociação está permitindo a prevalência sem contestação do minúsculo, porém poderosíssimo setor financeiro. Todas as cartas do jogo brasileiro estão sendo dadas pelo setor financeiro porque quem produz e quem trabalha estão brigando, e o que eu quero é reunir os interesses pragmáticos de quem produz com os interesses pragmáticos de quem trabalha. Trazer a taxa de juro pra baixo, revertendo 25 anos de populismo, para uma taxa estimulante à produção, isso aciona o motor da reindustrialização. O empresariado hoje tem R$ 2 trilhões em dívida consolidada, dos quais R$ 600 bilhões estão caminhando aceleradamente para crédito de recuperação duvidosa. Passamos de 30% do PIB industrial nos anos 1980 para 11% atualmente. Eu quero elevar isso para 40%. O início é com esses preços centrais da economia mais um sistema tributário que troque a incidência sobre faturamento para incidir sobre lucro e dividendos, além da taxação de heranças. Tudo isso é um desenho absolutamente proativo para o empresariado para criar caminho para duas questões: ampliar salário e renda e impostos mais volumosos para a verdadeira revolução educacional, sanitária e contra a violência. Esta é a lógica.

TR – Os nomes já especulados para vice (os empresários Josué Alencar e Benjamin Steinbruch, o ex-governador de Minas Márcio Lacerda e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia),  foram procurados?

Ciro Gomes – Essas conversas estão centradas no meu companheiro, amigo-irmão e presidente do partido, Carlos Lupi. Alguns nomes foram especulados, o único candidato que está fazendo isso com transparência sou eu, porque eu quero construir a candidatura com a população ao invés de ser uma decisão de gabinete. Eu quero saber como as pessoas reagem pra que eu minimize as possibilidades de erro e vá construindo o mandato de baixo pra cima.

Trocando em miúdos, se você eleger pilantra, eu vou ter que negociar com pilantra.

TR – O senhor tem conversado com partidos de centro, em busca de apoio. Estes possíveis apoios podem afastá-lo do eleitorado de centro-esquerda, com quem o senhor tem mais identificações ideológicas? 

Ciro Gomes – Eu só quero ser eleito presidente se eu for capaz de governar o Brasil, encerrando essa crônica cíclica de crise e de ódio. Não sou candidato a madre superiora de nenhum convento, sou candidato a presidente, com a tarefa de tirar o Brasil da explosiva crise na qual nos encontramos. Para isso eu preciso dialogar com pessoas diferentes e profundamente diferentes de mim, na medida em que a população deu a essas pessoas esse ou aquele tamanho. Eu não sou um ditador em potencial, não pretendo ser dono da verdade, por isso que as pessoas têm que ter a clareza que eu preciso dialogar com quem quer que o povo eleja. Se o povo eleger a grande maioria dos meus aliados, será ótimo. Se acontecer, o nível de contradição será minimizado, vou torcer muito para que o povo me dê esse privilégio. Mas eu sou humilde para saber que não é provável que isso vá acontecer, pelo menos não em tal extensão ideal. Trocando em miúdos, preste muita atenção no deputado em que você vai votar. Porque se você eleger pilantra, você está dizendo que eu vou ter que negociar com pilantra.

Em dezembro o senhor disse que descarta o apoio do MDB…

Ciro Gomes – Esse eu não dispenso, eu repilo. Apenas quero lembrar que, no campo simbólico, há os limites que a situação anterior impõe. Todo mundo será procurado para negociar, menos o MDB, que será exemplarizado, em um possível governo meu, como a demonstração de que agora as coisas mudaram, que a negociação se impõe dentro da democracia, mas o limite da negociação é a decência. Então em um governo meu, um partido que fez da indecência sua linguagem de negociação, vai ser destruído pelos caminhos democráticos. O MDB tem muita gente boa para além dessa quadrinha que dominou o partido, eu estou sendo injusto na generalização. E cito exemplos: Pedro Simão (RS), Roberto Requião (PR), Jarbas Vasconcelos (PE), Mauro Benevides (CE), são só alguns exemplos de pessoas muito honradas que eu teria o prazer em negociar.

TR – Então é possível governar, pela primeira vez desde a redemocratização, sem o MDB?

Ciro Gomes – Não é a primeira vez, essa é outra mentira do Fernando Henrique e do PT. O Itamar Franco, a quem eu servi como Ministro da Fazenda, governou sem o PMDB e fez um governo que criou a oportunidade histórica de enfrentar a inflação e criar o Plano Real. O Lula, no primeiro mandato, a quem eu tive a honra de servir como Ministro da Integração Nacional, governou sem o PMDB. Pelo contrário: no auge da crise do mensalão, havia petistas importantes forçando a mão pelo entendimento, eu fiquei contra, com outros nomes, mas o Lula arbitrou em nosso favor contra a aliança com o PMDB, apostamos na rua e ganhamos.

TR – O seu grupo político fez no Ceará alianças que podem ser vistas como questionáveis, por fugirem do padrão de centro-esquerda, como Moroni e Danilo Forte, por exemplo. Como o senhor pretende convencer o eleitor cativo do PT diante deste cenário?

Ciro Gomes – Não foge do padrão porque aqui o padrão é moral, não é ideológico. Tem dois caminhos, como eu disse antes, não sou candidato a madre superiora, sou a candidato a presidente de um país que tem tudo para implodir. A crise é tão grave, tão profunda, que é preciso ter humildade e ser sincero para manter a confiança do povo. Está aí nos números: 13,7 milhões de desempregados, 37,4 mil pessoas empurradas para a informalidade, 62 mil homicídios com apenas 8 mil investigados e o caos na saúde pública, na infraestrutura, a desindustrialização… Eu sei o tamanho do problema e qualquer coisa que precise negociar, com o limite da decência, na frente da opinião pública, da mídia, será negociado, sem purismo e sem sectarismo. A outra fórmula é lembrar o PT do que eles fizeram. Tenho 38 anos de vida pública, nunca respondi inquérito – nem pra ser absolvido – nunca me envolvi em mal feito ou corrupção. Dizem que eu sou agressivo, tem gente que me odeia, mas nunca me envolvi em corrupção, sempre dialoguei com todo mundo, governei com grande paz política no Ceará e pretendo fazer isso no Brasil. Agora, quem é que vai me patrulhar? Quem elegeu o Eduardo Cunha presidente da Câmara? Quem botou o Michel Temer na linha de sucessão? Quem se acertou com o Renan Calheiros? Antes do impeachment e depois? Não dá…

TR – O senhor tem expectativa de fechar com o PT em um eventual segundo turno?

Ciro Gomes – Eles vão ter que optar. E há uma parte da burocracia do partido que aposta naquela do ‘quanto pior, melhor’. Tá no slogan, ‘é Lula ou nada’. Pra essas pessoas não interessa o país. Felizmente é uma minoria cada vez menor, mais isolada em um gueto de intransigência.

TR – A quê o senhor atribui essa insistência do PT em não ceder ou dividir o protagonismo da esquerda?

Ciro Gomes – Isso é um cacoete do esquerdismo velho dos anos 1950, que não guarda coerência nem com a própria virtude.  Qualifica a história do PC do B, por exemplo, que foi Amazonino Mendes até morrer; qualifica a história do PCB, até o Roberto Freire dar a rasteira no Prestes, era só Prestes; na União Soviética era o Lenin até morrer, o Stalin até morrer; na China, Mao Tsé-Tung até morrer, é um cacoete que está renitente nas cabeças da esquerda brasileira também. É absolutamente incrível que um partido com a importância do PT não tenha um segundo, não é uma coisa sadia.

TR – Mas esse esgotamento de novas lideranças também não existe na direita?

Ciro Gomes – A direita não tem compromisso. Pra direita, o interesse é manter, conservar. Quem tem que ter coerência política, energia, é quem quer mudar. Quem tem que ter dialética de comprometimento pra inverter movimentos de opinião pública de massa é a esquerda, à direita, basta obstaculizar a mudança. Tem um ditado que é muito curioso, que diz que a esquerda é favor dos pobres, da educação, da igualdade, dos direitos humanos, e a direita é contra a esquerda. A tarefa deles é muito mais fácil!

TR – O senhor teme, caso não seja eleito, reeditar a história do fundador do seu partido, Leonel Brizola?

Ciro Gomes – Medo? Quem está na história é o Brizola, não é o Collor. Quem está na história é o Ruy Barbosa, que disputou e não ganhou. Evidente que eu quero ganhar, mas eu não quero ser um nome a mais na lista de presidentes fracassados deste sofrido país, quero ganhar pra fazer história. Só vale a pena assim, eu sou um cara que tem a vida ganha.