Estimular nas novas gerações um senso de responsabilidade com o outro e com o desenvolvimento da própria cidade por meio de uma formação múltipla, complementar à educação formal, que se apoia na música e no caratê: este é o espírito das ações do Instituto Beatriz e Lauro Fiúza (IBLF).

Desde 2012 e com o apoio de algumas grandes empresas que atuam no Estado, tais como Enel e Três Corações, o IBLF já transformou a realidade de mais de mil crianças e adolescentes de regiões carentes de Fortaleza.

Com cerca de 35 colaboradores em quatro espaços – a primeira sede no bairro Jardim União II e convênios com a Casa José de Alencar, da Universidade Federal do Ceará (UFC), com a Fundação Carlos Pinheiro (Henrique Jorge) e a Escola José Carvalho (Messejana) – o IBLF promove educação musical, eventos formativos e competições esportivas.

À frente do conselho do IBLF e das ações está Bia Fiúza, fotógrafa renomada que deu uma pausa na carreira e “mergulhou de cabeça” na educação e no terceiro setor depois de fazer mestrado na Alemanha, em Antropologia Visual, e estudar uma ONG no distrito de Juá, em Irauçuba, onde acabou assumindo a direção cultural e começou a trabalhar com responsabilidade social.

Você deixou a sua carreira na fotografia para abraçar o terceiro setor e dirigir as ações do IBLF. Como surgiu a ideia do instituto?

O instituto foi criado pela minha família. Minha mãe sempre teve uma veia filantrópica muito forte, além de ser professora, então ela sempre esteve envolvida com educação. E o meu pai em um dado momento entendeu que havia uma demanda em Fortaleza para ações educativas. A gente vive dentro de um contexto de desigualdade muito grande, que leva à falta de oportunidade principalmente para adolescentes e crianças, então surgiu dessa vontade de apoiar a educação de jovens carentes, até montamos o instituto em 2012. Na época eu tinha acabado de terminar o mestrado e estava trabalhando em uma ONG, e eles me convidaram a construir isso junto com eles.

Quantos jovens carentes já foram beneficiados pelas ações do IBLF?

O programa formativo de música dura entre seis e 10 anos e o de caratê entre oito e dez anos, então a gente ainda tá muito no começo da formação, mas já tivemos mais de mil crianças atendidas pelos nossos projetos. O que a gente tem muito orgulho de ver é a quantidade de nossos ex alunos que acessam o ensino superior. A cada semestre esse número cresce. Nós temos muitas referências positivas em lugares vulneráveis. Vemos isso com os nossos próprios alunos que se destacaram, se tornaram professores, atletas medalhistas, bolsistas de música e acabam sendo referências no seu bairro, é muito importante que a nova geração tenha esses exemplos próximos.

O IBLF mantém ações de formação paralelas à formação escolar tradicional. Por quê a opção pelo caratê e pela música?

O foco sempre foi olhar para as regiões mais pobres de Fortaleza, identificar esses pontos e trabalhar com linguagens que as pessoas não tivessem acesso, não queríamos fazer o papel da escola. Então pensamos na música, que é um instrumento universal para desenvolver as habilidades mais básicas e fundamentais da formação de uma criança. Posteriormente veio o karatê, que também trabalha os mesmos aspectos básicos que a música atinge. Os dois parecem muito diferentes, mas envolvem as mesmas coisas que trabalhamos: noções de disciplina, de respeito ao próximo, a perseverança, a capacidade de lidar com frustrações e vários outros aspectos da formação transdisciplinar.

Essa formação múltipla afeta a vida dos jovens atendidos de que forma? 

Tanto no karatê quanto na música, a gente tem um aspecto formativo muito grande, com as aulas, ensaios, treinos e todo um braço de difusão, da relação com o outro, de ver além dos nossos muros. A gente realiza seminários, intercâmbios e residências artísticas, a gente traz músicos de outros estados e até de outros países, para promover essa troca com os alunos e professores. Também trocamos muitas experiências com outras ONGs, assim os alunos vão saber o que tem lá fora, viver outras experiências. Assim, a garotada acaba se colocando em um lugar onde eles também se sentem responsáveis pela mudança.

As famílias dos alunos também recebem ações específicas?

Um terceiro programa do IBLF, que se chama Programa Envolver de Desenvolvimento Humano, trata das relações com as famílias dos nossos alunos. É um trabalho de articulação com as comunidades, de entender os territórios que a gente atua e de relacionamento com a sociedade como um todo. O Envolver tem uma equipe transdisciplinar que faz diagnósticos de cada área que a gente atua, depois um mapeamento de todos os serviços que existem na cidade e são gratuitos – das universidades que prestam atendimento médico e orientações jurídicos a programação cultural. A gente atua como um espaço de escuta e também de orientação, direcionando cada problema para a sua possível solução. Também temos contato com as escolas onde os alunos estudam, para acompanhar a forma como os nossos alunos estão se desenvolvendo.

Na sua avaliação, quais são os resultados mais palpáveis nestes seis anos do IBLF? 

Acho que o principal resultado palpável das ações do IBLF e que é imprescindível para a nossa filosofia, é o fortalecimento dos vínculos familiares. No topo da lista dos nossos objetivos, estão a diminuição da evasão escolar, nós queremos que nossos alunos concluam o ensino médio; a redução dos índices de gravidez precoce, e na periferia o índice de meninos e meninas que têm que abrir mão da escola por causa de uma gravidez precoce ainda é muito alto, interrompendo o processo formativo dos jovens, e a construção e fortalecimento dos laços familiares. Os encontros e vivências do Envolver trabalham muito isso, na afirmação dos valores e na compreensão do outro.

Você acredita que estes jovens que recebem uma assistência e formação educacional mais ampla, serão multiplicadores de uma cultura de paz no futuro?

Com certeza!  A gente acredita que os nossos alunos podem ser protagonistas, por isso incentivamos que, por exemplo, eles se apresentem em postos de saúde dos seus bairros, nas suas escolas, onde eles se conhecem e passam a ser referências dentro do universo de cada um. Junto com a formação também vêm as responsabilidades, no programa de caratê, por exemplo, os alunos são de diferentes níveis e faixas etárias, e os alunos mais avançados também são responsáveis pelo aprendizado dos menos avançados. Trabalhamos muito com a técnica do espelho, onde alunos, professores e colegas aprendem junto e se espelham uns nos outros. Assim a gente vai mostrando para as crianças qual é o lugar deles no mundo, que todos são sujeitos transformadores da sua realidade, que a oportunidade traz a responsabilidade de fazer algo com aquilo.

As ações do instituto são mantidas como?

São muitas parcerias, todas essenciais. A família faz um aporte anual, mas não é suficiente, por isso precisamos sempre das nossas parcerias para manter e ampliar as ações. Hoje nós estamos aptos a receber também créditos de ICMS das empresas, bem como do Imposto de Renda. A gente só consegue atender esse número de crianças (mais de 600, atualmente), esse número de famílias e com a qualidade técnica que temos, graças aos parceiros e doadores. No nosso site tem todas as instruções para quem quiser colaborar, é possível doar até via cartão de crédito.

O setor privado está preparado para se engajar mais em ações de responsabilidade social?

Acho que o caminho mais sustentável para o desenvolvimento de uma sociedade equilibrada é através das parcerias público-privadas. O investimento social privado é o caminho mais interessante pra gente pensar o Brasil. Vejo o terceiro setor como um dever e também uma oportunidade muito grande para que a gente se desenvolva como país. Quando nós nos organizamos em uma OSC (Organização Social Civil) e desenvolvemos um trabalho, nós exercemos o nosso direito de ter voz e de agir. Esses mecanismos de isenção fiscal nada mais são do que o governo convidando a sociedade a atuar onde ela pode atuar com mais eficácia do que o próprio governo. Essas mãos dadas é que fazem a diferença. Quem melhor do que a associação comunitária de um bairro para dizer quais são as necessidades de uma certa região? Quem melhor do que uma empresa daquela região para dar apoio a essas ações? Acho que muito mais do que cobranças, as parcerias ampliam as oportunidades.

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