Se música é memória, resgatá-las e dar uma nova roupagem, apresentando-as em um espetáculo com orquestra e depoimentos, é uma maneira de valorizar essas memórias e possibilitar que esses clássicos alcancem novos públicos, ao mesmo tempo em que ocupam diferentes locais da cidade.

Foi partindo dessa proposta que as produtoras culturais Adriana Gomes e Giselle Bezerra criaram o Histórias das Canções, espetáculo que resgata sucessos gravados pelo cearense Raimundo Fagner. Novos nomes da música cearense, como Lorena Nunes, Nayra Costa, Camila Marieta, Marcos Lessa, Jeff Pereira, Giovana Bezerra, Roberta Fiúza e Edinho Vilas Bôas, além do repentista Rafael Brito, apresentam as suas interpretações acompanhados de uma orquestra com 22 músicos sob a regência do maestro Thiago Mendonça, em diferentes espaços da cidade.

“A ideia de colocar os cantores Ceará é divulgá-los mesmo, todos já têm as suas carreiras bem construídas, alguns já atuam fora daqui, tanto em shows quanto em musicais no eixo Rio-São Paulo, mas muitas vezes ainda são conhecidos por certos ‘guetos’, e nos nossos projetos nós reunimos várias tribos”, resume Adriana.

Além desse resgate, o espetáculo, que encerra a temporada de 2018 logo mais, no Teatro Municipal São José, é integralmente produzido no Ceará. “A gente produz os nossos espetáculos, somos meio que bairristas, não trazemos ninguém de fora”, brinca Giselle, que já prepara novidades para os seus projetos – Histórias das Canções e Clássicos Populares – em 2019 e afirma ter vontade de produzir ainda espetáculos que homenageiem nomes como Tim Maia e Maria Bethânia.

Como surgiu a ideia de “amarrar” as músicas apresentadas com depoimentos sobre as músicas?

Surgiu de conversas mesmo. Adriana e eu somos sócias e amigas, e durante conversas nós compartilhamos histórias e pensamos: ‘que legal seria poder juntar isso, história e música, em um espetáculo’. A ideia é resgatar as memórias das pessoas, todo mundo tem alguma música que marcou algum momento da vida.

Este ano, o Histórias das Canções já passou pelos teatros do RioMar, Dragão do Mar, e agora termina a temporada no São José. Essa itinerância foi pensada desde o início?

Nós temos dois projetos que caminham paralelamente, o Histórias e o Clássicos Populares. Além desses citados, nós já passamos também pelo anfiteatro do Dragão, pelo Teatro Celina Queiroz e pelo São Luiz. Realmente temos essa característica, são quase espetáculos itinerantes. Nós vamos ocupando equipamentos diferentes e atingindo públicos diferentes também, que têm em comum histórias pessoais embaladas pelos clássicos da música que são apresentados.

O História das Canções vai continuar em 2019? Outros artistas devem ser homenageados, além do Fagner?

Sim, e já temos até o nome! O próximo vai ser Roberto Carlos. Estamos no processo mais difícil, que é escolher o repertório. Depois, nós definimos o elenco e vamos atrás dos depoimentos das pessoas. Eu espero que até março a gente já tenha tudo fechado.

O Clássicos também vai continuar no ano que vem?

Vai continuar, mas nós estamos desenvolvendo uma nova roupagem. Continuará homenageando mestres como Lupicínio Rodrigues e Cartola, e outros também (inclusive já fizemos o Clássico à beira mar, com músicas do Ednardo e do Belchior), mas vamos inserir ainda dança e projeções. O Clássicos tinha um formato mais de show mesmo, já o Histórias mescla outras linguagens, como os vídeos e o repentista que faz intervenções e declamações entre as canções. A ideia é usar outras linguagens nos dois espetáculos.

Como você avalia a sua experiência acompanhando a última campanha para a Presidência da República, ao lado de Ciro Gomes?

Foi enriquecedora, mudou mesmo a minha vida. Eu estive em todos os estados, pude ouvir de perto os problemas que as pessoas têm e constatar que, de fato, existem mil ‘Brasis’. E saí com mais certeza de que a solução é via política sim, não existe possibilidade de consertar tanta coisa sem o diálogo que a política proporciona. E a campanha não acabou. Nós vamos sempre estar em campanha pela mudança.

O que você espera do novo governo para as políticas de acesso à cultura e a possibilidade de extinção do Minc?

Sinceramente? Eu espero poder esperar o melhor. A gente, que é da cultura, e eu trabalho como produtora desde 2001, teme que muita coisa pode ser acabada. E um país que não investe em cultura não tem memória, não tem passado e não terá futuro. Mas, eu acredito que o novo governo vai ter sensibilidade para continuar apoiando o setor, e que a mobilização de quem faz cultura, dos artistas, dos produtores, dos diretores, e não estou falando dos artistas de milhões, mas de quem tá aqui, no dia a dia das cidades, não vai deixar que aconteça um desmonte do setor.

Serviço:
Show de encerramento espetáculo História das Canções – Raimundo Fagner
Cantores: Camila Marieta, Jeff Pereira, Edinho Vilas Bôas, Nayra Costa, Giovana Bezerra, Roberta Fiúza e Lorena Nunes. Orquestra Vibrato (regência Thiago Mendonça)
Repentista: Rafael Brito.
Data: 5/12
Horário: 20h
Local: Teatro Municipal São José (Rua Rufino de Alencar, 299 – Centro)
Ingresso: R$ 20